Um papo franco e emotivo com o técnico Horacio Dileo



Desde o dia 3 de julho do ano passado, Horacio Dileo ganhou uma segunda data de aniversário. Durante exames médicos de rotina, na Argentina, ele descobriu o entupimento quase total das artérias do coração. O técnico precisou passar por uma cirurgia para colocação de quatro pontes de safena. Um susto daqueles!

Eram quatro dias previstos para receber alta. Ele passou 19, por conta de um pneumonia. Saiu do hospital com muito mais vontade de viver e, principalmente, voltar a fazer o que mais gosta profissionalmente: estar em quadra, orientar jogadores e fazê-los crescer como pessoas dentro do cenário do vôlei.

A orientação dos médicos foi clara: voltar a trabalhar depois de quatro ou seis meses de recuperação. Ele chegou, inclusive, a pedir demissão do Vôlei Renata, pedido não aceito pela direção. Acabou voltando no dia 3 de setembro, exatamente dois meses depois do grande susto, tentando explicar aos médicos que “não poderia deixar o time na mão, pois ele o esperava para começar um trabalho”.

Parte do resultado deste esforço começará a ser colhido neste fim de semana. O Vôlei Renata, comandado pelo argentino, vai encarar o Sesc, no Rio de Janeiro, na abertura dos playoffs em melhor de três das quartas de final da Superliga Cimed Masculina. O favorito é o time carioca, mas é bom não duvidar de Horacio Dileo.

Nesta conversa, no Ginásio do Taquaral, em Campinas, o treinador se emocionou ao relembrar o problema de saúde, do aprendizado e apontou algumas pessoas importantes em todo o processo. Uma delas, inclusive, também falou ao blog sobre a relação com o treinador do Vôlei Renata.

Horacio Dileo orienta time do Vôlei Renata (Divulgação)

A CIRURGIA

Como eu falei para o médico, o vôlei é minha paixão. Eu nunca duvidei, em nenhum segundo, que não iria voltar e que não iria voltar bem. Eu sempre acreditei em voltar a trabalhar. Mas sabia que primeiramente teria de deixar tranquilo o pessoal que me ama. Aí depois iria me permitir curtir a minha paixão o máximo possível.

APOIO NO BRASIL

A primeira coisa que penso quando falo sobre isso é fazer um agradecimento gigantesco, primeiramente para a diretoria do Vôlei Renata. Quando eu falei  do meu problema eu queria me demitir, eles não aceitaram. Disseram que iriam me esperar o tempo que fosse necessário. (Fernando) Maroni, André (Heller), Maurício (Lima), um obrigado muito grande a todos da direção (a voz fica embargada e os olhos se enchem de lágrimas). Depois preciso agradecer à comissão técnica e aos jogadores, pelo jeito que se doaram quando eu não estive aqui em Campinas. Foi uma amostra de respeito, carinho, consideração muito grandes com a pessoa Horacio Dileo. Acabou sendo um ano marcante para mim, de muita aprendizagem, mas também de muita insegurança.

MUDANÇAS APÓS A CIRURGIA

O Horacio de hoje mantém os mesmos princípios, talvez mudando um pouco as formas. Mantenho os mesmos princípios de trabalho e honestidade. O mais importante que tenho no trabalho são meus jogadores. Preciso ajudá-los a melhorar, não pensando apenas em ganhar ou perder. Minha prioridade com os atletas que passam pelas minhas mãos é que consigam ser melhores pessoas, não apenas melhores jogadores.

O APRENDIZADO NO VÔLEI BRASILEIRO

A primeira coisa que o Brasil me deu e sempre vou agradecer foi respeito. Sou muito respeitado desde o primeiro momento que cheguei no Minas. Nunca fui tratado como estrangeiro, como um “hermano”. Fui tratado igual aos demais. Na Argentina, temos cultura de trabalho parecida, mas aqui a infraestrutura é muito melhor. 70% dos treinadores que trabalham na Argentina fazem milagre. Têm duas bolas, sem rede e se viram para dar treino. Outra coisa que aprendi, talvez a palavra não seja aprender, mas sim confirmar, foi a cultura do trabalho. Aqui se trabalha muito, a temporada aqui é mais longa. Hoje passamos de 38 semanas de trabalho. Na Europa a temporada já estaria acabando. O Brasil tem uma identidade no vôlei e isso vai muito além dos títulos. Bernardo, Zé Roberto, Bebeto… Gente com uma entrega e uma competência muito grandes. Falo muito de Bernardo e Zé. Durante as oportunidades que tive o prazer de conversar com eles, sempre me trataram de maneira fantástica, com carinho, atenção. E não tinham motivos para isso. Posso ficar aqui até me aposentar ou ir embora amanhã, mas vou agradecer sempre ao Brasil.

EQUILÍBRIO DA SUPERLIGA

A minha primeira temporada do Minas foi muito equilibrada, mas a atual tem um equilíbrio absurdo. São três níveis de time: primeiro é Sada/Cruzeiro. O segundo vai do Sesc até Minas. Incluo o Minas pois vejo que ele está fazendo um caminho de muita coerência. Mantém a base e troca uma ou duas peças por ano. A troca do Marlon foi um xeque-mate, uma jogada perfeita de xadrez. O outro grupo é o nosso, do sexto até o décimo. Ainda assim, o 11º e o 12º não permitiam que a gente poupasse o time, tanto que perdemos para Maringá. Foi uma Superliga muito igual até aqui.

DESTAQUE DA TEMPORADA

Escolher o melhor é complicado. Vou citar jogadores que fizeram diferença. Leal e Simon fazem muita diferença no Sada/Cruzeiro. Uriarte faz temporada fantástica em seu primeiro ano de Brasil. William continua sendo um diferencial no Sesi. Os três meus aqui que destaco são Vini, Diogo e Vissotto. Marlon, no Minas, Leozinho foi um diferencial em Juiz de fora… Mas falar de um jogador apenas é muito difícil para mim. Jogadores assim sempre tem uma marcha a mais do que os outros, se fôssemos comparar com um carro. Ela só é acionada quando eles acham que é necessário. Quando não jogam no modo “standard”. Um cara assim é o Simon. Ele é absurdamente bom, joga como oposto, como meio. Se você saca curto, ele faz passe A e ataca na primeira bola. É um jogador diferente, não tenho dúvida.

O VÔLEI RENATA

Tenho um time bem diferente nesta temporada, com jogadores muito adultos, nunca chamarei de velhos, e oito jogadores com idade até para juvenis. Essa mistura foi bem difícil durante a temporada. Uma coisa que os adultos me ensinam todos os dias é a capacidade de sempre querer um pouco mais. Parece que eles falam permanentemente: “Sou eu quem vou decidir quando vou me aposentar. Ninguém vai me aposentar”. A primeira vez que escutei isso foi do Marcelinho (levantador). Fomos comer uma pizza juntos e ele disse: “Comandante, sou eu quem vou decidir”. Isso é maravilhoso, é o amor pelo esporte. Não acho que nenhum deles faz isso só por dinheiro. A paixão que esses “garotos grandes” têm é encantadora, um espelho muito bom para a meninada, que é responsável, demorou um pouco para jogar como quero, mas é absolutamente normal.

RECADO FINAL

Tive mostras fantásticas, até inesperadas, aqui no Brasil. E sempre serei grato. Mas quero agradecer, em particular, ao Marcelo Mendez (Dileo se emociona). Ele foi o cara que segurou nos piores momentos. Ele foi a pessoa que me obrigou o tempo todo em a acreditar que continuar é possível.

Não poderia deixar de ouvir o treinador do Sada/Cruzeiro sobre a declaração para encerrar esse texto.

– No trabalho, Horacio é excepcional. Todo jogador gosta dele, sempre teve bons resultados, trabalhou em seleções masculina e feminina. É um incansável trabalhador. Sempre deu tudo por seu clube, seus atletas, sua seleção. Como pessoa é um irmão que a vida me deu. Compartilhei muitas decisões familiares e de trabalho com ele. Sempre me deu conselhos nos principais momentos. Não consigo definir com palavras o que ele é para mim. Gosto dele, da família, sou padrinho de um dos meus filhos. É uma daquelas
pessoas que você sempre gosta de ter ao lado.



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