Os atuais dilemas do vôlei brasileiro



Pela primeira vez neste século, o Brasil ficou fora do pódio no masculino e no feminino na mesma edição da competição anual organizada pela Federação Internacional de Vôlei (antes Grand Prix e Liga Mundial e agora Liga das Nações).

Desde 2001, os homens não entraram no top 3 em cinco oportunidades: 2008, 2012, 2013, 2015 e 2018. Já as mulheres ficaram sem medalha em 2001, 2002, 2003, 2007 e agora 2018. E sempre que um ficou fora do pódio o outro estava lá.

Não é motivo para acreditar em terra arrasada, como li nas redes sociais nos últimos dias. E da minha parte não gera uma caça às bruxas. Mas o quarto lugar nos dois naipes permite uma reflexão importante sobre o momento do vôlei brasileiro.

Neste século, as Seleções deixaram o torcedor mal acostumado, tamanho o domínio no cenário mundial. Foram dois ouros olímpicos para cada um (masculino em 2004 e 2016 e feminino em 2008 e 2012), um tricampeonato do mundo entre os homens, nove conquistas de Grand Prix e mais oito na Liga Mundial, sem falar em Copas dos Campeões, Copas do Mundo, etc.

E quais foram os diferenciais? E o que mudou no cenário atual?

1) Essas gerações ficaram conhecidas pelo riquíssimo material humano. Virou uma marca registrada chamar o Brasil de um time de 12 ou 14 titulares. E não era exagero. José Roberto Guimarães e Bernardinho comandaram grupos muito gabaritados, com pouca ou nenhuma diferença técnica/física/emocional entre titulares e reservas. Trocar A por B e mudar um jogo. Trocar B por C e o nível aumentar ainda mais. As Seleções faziam isso com maestria. A construção de uma hegemonia verde-amarela no período foi muita baseada neste aspecto.

Atualmente não dá para dizer o mesmo. Ficou nítida nas campanhas nesta Liga das Nações a extrema dependência do Brasil de alguns atletas. Sone ainda a carência em alguns setores, principalmente na ponta, nos dois naipes.

Os problemas de lesão fizeram Zé Roberto e Renan Dal Zotto trabalhar com os elencos no limite. E ficou clara a diferença entre os considerados titulares e os reservas imediatos.

Atual campeã olímpica, Seleção masculina aguarda volta de Lucarelli (Divulgação)

No masculino, Renan ficou sem Lucarelli desde o início da temporada, lesionado. O técnico manteve no elenco um trio campeão olímpico (Maurício Borges, Lipe e Douglas Souza) e alternou outros durante as etapas: Rodriguinho, Victor Birigui, Leozinho e Lucas Lóh. Quando perdeu Lipe e Maurício, precisou usar os mais jovens com pouca ou nenhuma rodagem neste nível. Pesou!

No feminino, Zé deixou Natália fazendo um trabalho especial para evitar uma cirurgia no joelho. Gabi foi outra a receber uma atenção especial, jogando um set por jogo para não “estourar” durante a Liga das Nações. Fernanda Garay, que seria outro pilar nesta Seleção, pediu para não ser convocada. Ao perder Drussyla, lesionada, ele se viu sem o principal quarteto atual para o setor. E aí não dá para cobrar o mesmo de Amanda e Rosamaria, por exemplo.

Em ambos os casos, os problemas físicos obrigaram a dupla de treinadores a utilizar Murilo e Jaqueline, agora líberos, como opções na ponta. Mostra como o cobertor ficou curto. Um casal com uma ficha imensa de serviços prestados ao vôlei nacional, mas que vive um outro estágio, principalmente físico, em 2018.

2) Parte do problema do Brasil descrito acima está relacionado aos resultados do trabalho das categorias de base nos últimos anos. Há anos eu ouço de atletas e treinadores a preocupação com as novas gerações. Elas não possuem o mesmo nível das anteriores, em quantidade e qualidade.

Nos Campeonatos Mundiais, o Brasil deixou de ser hegemônico. Em algumas categorias, até a hegemonia sul-americana foi perdida para a Argentina. Alguns vão dizer que na base o importante não é conquistar títulos, mas sim revelar atletas. Posso até concordar em parte com a tese, mas a prática mostra que as conquistas diminuíram na proporção da queda do nível da revelação de atletas.

Basta acompanhar um pouco da Superliga para perceber como vários clubes têm recorrido aos atletas mais veteranos, já que os mais novos ainda não entregam o esperado.

Históricos clubes formadores saíram de cena, famosas peneiras deixaram de existir, o investimento da CBV em intercâmbio foi reduzido e vem por aí uma Medida Provisória para reduzir a injeção de dinheiro no esporte. Um cenário bem desolador, que já começa a dar frutos bem ruins.

3) Todos os treinadores, de todos os esportes, sempre serão questionados pela escolha de A em detrimento de B. O vôlei nacional não foge à regra. Com todo o histórico positivo e vencedor de Bernardinho, faltaram oportunidades para Filipe e Serginho, do Sada/Cruzeiro, por exemplo. Renan também não olhou para a veterana dupla ao assumir o cargo. Dois erros, na minha opinião. No feminino, eu teria apostado nesta Liga das Nações em Bruna Honório, oposto com característica mais parecida com Tandara.

Com lesões, Brasil sofre extrema dependência de Tandara (FIVB Divulgação)

4) É preciso admitir também que existe um trabalho sendo bem executado em outros países: Estados Unidos (nos dois naipes), Rússia e França (masculino), Turquia e China (feminino). Não existe apenas um momento de instabilidade com uma certa entressafra de talentos por aqui. Há méritos do outro lado da quadra.

Com tudo isso posto, o Brasil não tem chances nos Mundiais que estão por vir? É claro que tem. Mas precisará contar com a recuperação física de atletas-chave (Natália, Gabi, Dani Lins, Thaisa, Lucarelli, Lipe, Maurício Borges), com uma contribuição mais efetiva dos mais jovens, com do aprendizado obrigatório com as derrotas recentes, além da compreensão de que o cenário atual é diferente de anos anteriores.

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