O Brasil intolerante que a eleição mostrou



Nunca me afastei de um amigo em 35 anos de vida por motivos futebolísticos. E talvez me orgulhe de dizer o mesmo daqui a outros 35 anos, sentado, ao lado de uma destas pessoas com gosto diferente do meu, numa cadeira confortável das novas arenas feitas/refeitas para a Copa ou no cimento quente das arquibancadas de outros  estádios nem tão modernos. Mas já não posso mais dizer que nunca me afastei de um amigo quando o assunto é eleição presidencial da República Federativa do Brasil.

Foram quase insuportáveis os últimos dias da disputa Dilma/Aécio neste país. Twitter e Facebook, lugares que permitem a escolha de quem seguir, se transformaram em verdadeiros coliseus romanos. Foi sangue para todos os lados. Raiva, rancor e violência eram perceptíveis em textos de 140 caracteres ou em teses de mestrado para desqualificar o “outro lado”, quase sempre sem provas. Você se torna uma pessoa boa se compartilha a mesma posição de um “amigo”. Mas você vira inimigo mortal caso tenha optado pelo outro lado. Que mundo é esse?

A intolerância, neste caso partidária que a eleição Dilma/Aécio mostrou, só reforça outras tantas que estão arraigadas em nossa sociedade. E talvez sirva para explicar o motivo para uma centena de “torcedores” de um clube fechar um rodovia para tentar matar rivais antes da realização de um clássico regional. Ou alguém é inocente a ponto de acreditar que uma emboscada serve apenas para assustar?

Será que é tão difícil aceitar quem é diferente de você na escolha do time do coração ou ao digitar na urna eletrônica o número do governante que você gostaria que o país tivesse? No mundo ideal, Fla-Flu, Corinthians x Palmeiras, Gre-Nal, Cruzeiro x Atlético, Ponte Preta x Guarani, Ba-Vi, entre outros, não deveriam destruir amizades ou querer a morte de adversários. O mesmo deveria acontecer em um clássico PT x PSDB, independentemente de quais candidatos estivessem na disputa. Triste saber que o Brasil de hoje passa longe deste mundo ideal.

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O texto acima foi publicado no LANCE! de hoje, já que precisei substituir na página 2 o amigo Eduardo Tironi. Foi escrito horas antes de Dilma Rousseff vencer Aécio Neves e ser reeleita. Já estava na página quando a intolerância voltou a explodir nas redes sociais, com um punhado de gente (amigos, colegas, conhecidas ou atletas de elite) perdendo a linha. Xingamentos, comentários xenófobos, palavrões… A prova definitiva da intolerância que contamina o país.



  • Fernando

    Daniel, infelizmente existem os que não sabem ganhar e também os que não aceitam a derrota. Isto é cultural, arraigado no brasileiro.
    Mas embora ninguém queira admitir, o país está sim dividido. Mas não como alguns querem vender: brancos x negros, norte x sul, ricos x pobres. Mas insatisfeitos x satisfeitos. Isto seria o ideal numa democracia, não fosse o fato de que as pessoas perderam a mão e descambou para a violência e tiroteio de todas as partes.

  • Luiza

    Fiquei extremamente chateada com a quantidade de preconceito externada nesse eleição e nossos queridos atletas do vôlei não ficaram para trás, vi seu tweet sobre a falta de media training, saiba você que tinha acessora/empresária/babá de atleta titular da seleção com discurso de ódio nas redes sociais.

  • Alex

    O que foi aquela confusão no blog do Lucao? LAMENTEVAL.

  • borntobefire

    Finalmente o Brasil mostrou sua cara, como cantava acho que a Gal Costa, “Brasil, mostra sua cara, vamos ver quem paga prá gente ficar assim, qual o seu negócio, o nome do seu sócio …..”
    O episódio do goleiro do Santos, o Aranha, mostra que país é esse, o sul é totalmente racista, mas não sabe que séculos de opressão ao povo nordestino resultou num povo sofrido, que somente agora recebe alguma atenção e não sabem eles que o nordestino bem atendido, o fixaria em suas maravilhosas terras, que o único defeito é não ter muita água (por enquanto), ou vcs acham que 70% dos nordestinos recebem bolsa família? (ainda é muito pouco), foram também obras que beneficiaram o nordeste, nada mais que justo.
    Portanto, as pessoas que renegam o nordeste não conhecem de justiça social, igualdade de direitos, são reacionários, às vezes também me pego reclamando que eles vem para o sul criar favelas, mas a mudança (prá melhor) do país parte justamente pela melhor qualidade de vida dos nordestinos.
    E ISTO É UMA COISA QUE NÃO PODE MUDAR, NÃO PODE RETROCEDER, COM RISCO DE INVADIREM TAMBÉM O SUL (PRÁ QUEM SE INCOMODA COM ISSO).

  • Lilika

    É como sempre falei, falta educação (cadê?!? Lá embaixo pior que muitos países africanos)….e quem está na parte de cima de nosso mapa geográfico se sentindo superior aos que estão abaixo e vice versa…literalmente dividindo nosso país…foi muita baixaria…de fato não apoiava nem A nem D…mas faria bem a mudança de poder, justamente para descobrirmos tudo o que ficou debaixo do tapete até agora…enfim…espero que nossa liberdade não seja tomada, pois falta pouco, muito pouco pra isso acontecer…o que ficou claro é que, somando os votos do candidato à oposição do atual governo Federal e as abstenções, a insatisfação com o governo atual é absurdamente maior aos que votaram a favor deste…sorte para nós vamos precisar

  • tuliobr

    Curiosos observar que ambos os partidos têm uma gênese comum e defendem princípios similares: o PT, no governo, portou-se como um partido social-democrata mais que uma agremiação socialista; até mesmo a discussão (séria, não de irrelevâncias marqueteiras) entre os dois partidos é difícil, pois ambos defendem posições muito próximas e fazem uma disputa de iguais pelo mesmo espaço, e não de opostos. Creio que a discussão democrática é saudável, mas fico decepcionado quando nossos maiores líderes políticos sobem em palanques e fazem pronunciamentos irresponsáveis que extrapolam o respeitoso confronto de ideias e fomentam os excessos de suas militâncias. São pessoas das quais eu esperava mais. Os marqueteiros até podem formular estratégias vergonhosas e indignas, mas eu sonho com o dia em que teremos líderes políticos que, confrontados com uma sugestão degradante para “desconstruir” (neologismo horroroso; não sei que país construiremos ao “desconstruir” seja lá quem ou o quê for), expulse o calhorda da sala e tome as rédeas de sua campanha, falando por si mesmo e não lendo um roteiro de falácias e meias verdades. Aí sim, teremos um ou uma estadista para conduzir o país. Hoje, desanimado, eu só posso torcer pelo melhor.

  • Afonso RJ

    Adoro o Nordeste. Sim, há muita pobreza por lá, em relação ao sul do país. Nada mais justo do que uma distribuição da renda nacional de modo que os necessitados vivam com um mínimo de dignidade. É para isso que os governos existem. É para isso que existem impostos. Mas, faça-se isso sem “matar a galinha dos ovos de ouro”. É o que estamos vendo: economia patinando em vias de recessão, indústria sendo sucateada, investimentos privados nacionais e estrangeiros caindo vertiginosamente, inflação saindo de controle, tarifas represadas, bolsas despencando, máquina estatal cada vez mais inchada e ineficiente (o numero de ministérios chega a ser Kafkiano), impostos escorchantes sufocando cada vez mais o contribuinte, ingerência cada vez maior do estado na sociedade, corrupção atingindo índices nunca vistos anteriormente no país, e como se tudo isso não bastasse, praticamente faliram com a Petrobrás de forma criminosa bem nas vésperas da exploração da maior riqueza nacional descoberta no último século – o pré-sal.
    Sim, sou a favor de um estado que preze o social, e até mesmo invista pesadamente para a melhora das condições de vida dos mais necessitados. Mas o que se vê é um estado basicamente assistencialista com pouquíssimo ou quase nenhum investimento naquilo que realmente daria condições de sustentabilidade às conquistas sociais: uma economia saudável com índices razoáveis de crescimento, infraestrutura, educação e saúde. Pobres de nós, e mais pobres ainda os mais pobres, que se os rumos atuais não forem corrigidos correm um sério risco de verem ir ralo abaixo tudo aquilo que aparentemente conquistaram nos últimos anos.
    E com a queda cada vez maior da capacidade de investimentos das empresas, quem vai ter condições de destinar alguma verba para esse “esportezinho elitista cheio de torcedores playboyzinhos” que é o vôlei?

    • leandro

      “esportezinho elitista cheio de torcedores playboyzinhos” que é o vôlei?KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

      • Afonso RJ

        Sacou a ironia? É esse o tom dos “cumpanheru”.

    • leandro

      “esportezinho elitista cheio de torcedores playboyzinhos” que é o vôlei?KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    • Luiza

      “Corrupção atingindo índices nunca vistos anteriormente no país” nunca visto, porque existir, sempre existiu.

      • Afonso RJ

        E sempre existirá, pelo menos até onde nosso horizonte alcança. Mas esperamos que em níveis tolerávis (se é que isso existe), e não nos absurdos patamares atuais.

  • Mari

    O preconceito contra os nordestinos foi uma das coisas mais nojentas que eu vi. Colegas de profissão e de trabalho (eu sou advogada) falando asneiras, dá vontade de, sei lá o que…
    O pior foi ver o Lucão um ídolo do vôlei sendo tão racista e reacionário foi de doer. E não foi só ele, praticamente todos os jogadores de vôlei apoiaram o candidato tucano e não aceitavam que os criticassem foi o cúmulo.
    Eu acho que no fim das contas o povo brigou no ano passado por causa dos 0,20 mesmo.
    A mudança entre PT e PSDB não traria nada de novo para o país, se o povo queria mudanças que votasse na Luciana Genro ou se abstesse de votar pq os dois candidatos são farinha do mesmo saco.

    • Severino

      Puxa vida, Luciana Genro é de lascar. Lembrar que quem começou a divisão foi o Barba com história de nós e eles, logicamente que o pessoal de SP em sua maioria e o Sul iriam pegar pilha pois ninguém aceita ser confrontado todos os dias sem devolver na mesma moeda, o PT sempre espalhou o ódio, isto ficou mostrado no discurso da presidente ontem, enquanto discursava seus militantes gritavam contra meios de comunicação e ela em nenhum momento pediu que parasse, eu sou nordestino e moro no interior do CE e fiquem todos sabendo que a maioria das pessoas aqui que recebem bolsa isso e aquilo falam mal dos paulistas e paulistanos e dos sulistas, já cansei de ouvir, mas falam porque assim são cooptados pelos petista que sempre faz a divisão, então acho a reação dos paulistanos e paulistas e sulista totalmente compreensível, se há preconceito de lá pra cá também há daqui pra lá, pois ninguém aguenta outro fazer pouco e ficar falando trabalhem pra me sustentar otários que nem a gente escuta aqui de muitos que recebem bolsa família ou q vivem as custa de aparelhamento.

  • daniel

    O país de guerra que nos tornamos é fruto do partido que chegou ao poder alimentando o ódio entre as pessoas. Agora estamos colhendo os frutos.

  • Rose

    Decepção total.

  • logan

    O seu texto politicamente “correto”, que é cheio de sentidos autoritários. É muito fácil e bonitinho chamar o outro de intolerante e ficar horrorizado, mas quando se aponta um dedo, três deles se volta contra você mesmo. Os articulistas sérios (não jornalistas que brincam de ser analistas) pegariam essa oportunidade para constatar que tal divisão é histórica e ela só estava escondida debaixo do tapete. A reação inflamada é só uma das consequências dos discursos de longa data de cunho maniqueísta repercutidos pela mídia, que, em sua maioria, faz vistas grossas. E faz vistas grossas porque existe um ranço ideológico impregnado no DNA no curso de Comunicação Social. Você sabe que isso é verdade.

    As políticas públicas e os discursos só contribuem para que essas diferenças fiquem cada vez maiores. A partir do momento em que o governo instiga tal divisão, as tensões eclodem. A reação é fruto de uma construção de lados que é estabelecida no País. Por exemplo: quando um gaúcho diz que ele é acima de tudo um gaúcho e depois brasileiro, as pessoas o chamam de bairrista, separatista. Isso é de agora? Não. Há um contexto cultural que nunca é levado em conta ou sequer explicado pelos meios de comunicação. Assim como não há sensibilidade política na promoção de uma aproximação cultural.

    Os gaúchos estão certos? Talvez. Talvez estejam tão certos quanto os bascos estão na Espanha. Ou quanto os escoceses para os ingleses.

    Quanto à violência de torcedores, você nunca parou para pensar que isso é fruto da impunidade? Muito mais do que da intolerância? Porque a população não é mais intolerante hoje do que há 20, 50 100 anos.

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