A eterna polêmica do ranking no Brasil



Desde que me conheço como jornalista esportivo o ranking dos atletas no Brasil é um assunto polêmico. E ele voltou às manchetes nesta segunda-feira.

O manifesto das principais jogadoras do país escancara a insatisfação com a principal mudança feita por clubes e avalizada pela CBV para a próxima Superliga feminina: a manutenção do ranqueamento apenas para as tops, atletas com pontuação máxima (7 pontos).

Dani Lins, Fabiana, Fernanda Garay, Gabi, Jaqueline, Natália, Sheilla, Tandara e Thaisa, em uma nota oficial de repúdio em conjunto, alegam discriminação e desrespeito, já que as demais “camadas” do ranking foram extintas para a temporada 2017/2018. Citam inclusive o fim da pontuação das estrangeiras. Pelo novo regulamento as nove deverão respeitar a restrição aprovada pelos clubes, limitando-as a no máximo duas por time. Em 2014 o mesmo grupo de jogadoras fez uma campanha, em redes sociais, com a hashtag #NaoAoRanking.

A CBV se defendeu também em nota oficial, dizendo que não tomar decisões unilaterais, salienta a participação da Comissão de Atletas no processo e se apoia no fato de sete dos nove clubes participantes na reunião terem assim decidido.

Em resumo: entidade organizadora da Superliga, clubes e atletas não falam a mesma língua. Na verdade, não falam há tempos. Mas agora alguém resolver radicalizar. E as consequências são imprevisíveis. Jogadoras, na mesma nota, falam em buscar uma solução judicial caso o ranking seja mantido.

Estariam dispostas também a boicotar futuras convocações para a Seleção?  E será que sairiam todas do país para jogar no exterior caso a regra seja mantida? A ver.

Nesta semana acontecerá a reunião com os clubes do masculino. Lembro que entre os homens os embates com a CBV acontecem há mais tempo por intermédio da Associação de Clubes. Ela inclusive deseja assumir a gestão da Superliga. Promessa de novos desentendimentos? É bem possível.

Quase um ano atrás escrevi uma coluna sobre o ranking, colocando em discussão a possibilidade de acabá-lo de uma vez por todas. José Roberto Guimarães, técnico da Seleção feminina, era um dos apoiadores: http://blogs.lance.com.br/volei/ranking/

Ao buscar mais fundo do arquivo do blog encontro um post de 2014, com a própria CBV admitindo a possibilidade de extinguir o ranking: http://blogs.lance.com.br/volei/o-ranking-esta-mais-perto-de-acabar/

Por enquanto é esperar os próximos capítulos. Infelizmente não aposto em um “acordo de paz”.

Abaixo reproduzo as notas oficiais das atletas e da CBV:

NOTA DAS ATLETAS

“Nós, Danielle Rodrigues Lins, Fabiana Marcelino Claudino, Fernanda Garay Rodrigues, Gabriela Braga Guimarães, Jaqueline Maria Pereira de Carvalho Endres, Natália Zílio Pereira, Sheilla Castro de Paula Blassioli, Tandara Alves Caixeta e Thaisa Daher Pallesi, atletas brasileiras de voleibol, prejudicadas pelo ranking adotado pela CBV – Confederação Brasileira de Voleibol – repudiamos o regulamento do ranking votado em 14/03/2017 e imposto para a temporada 2017/2018.

O ranking, que já foi alvo de críticas em diversas oportunidades, é uma anomalia que só existe no Brasil, sob o pretexto de se criar equilíbrio na competição. Porém, nunca houve equilíbrio, basta verificar as poucas mudanças nos vencedores da Superliga dos últimos anos. O problema do voleibol brasileiro é estrutural e não adianta tentar corrigi-lo com um ranking que cria um equilíbrio artificial e teórico.

O ranking sempre criou problemas às atletas, principalmente àquelas com maior pontuação. As limitações impostas pelo regulamento, que por si só, vão de encontro ao interesse das atletas, que são verdadeiras protagonistas dos eventos esportivos, ainda são inconstitucionais, tendo em vista que impõem restrições à liberdade de trabalho das atletas, ao direito de escolha de cada uma, ao livre mercado e força a redução dos salários, o que é inconcebível. É importante lembrar, também, e lamentar, que a opinião das atletas nunca foi ouvida, sequer levada em consideração nas decisões que envolvem o ranking.

A própria CBV criou a chamada “Comissão de Atletas”, mas esta comissão ligada à própria instituição tem apenas um voto na decisão do ranking. Não é razoável. Se há cerca de 10 clubes votantes, as atletas nunca terão chance contra os demais. Repetimos: não é razoável.

Quando a vontade das atletas prevalecerá? Da forma como as coisas estão, jamais! A situação ficará ainda pior na temporada 2017/2018, pois tomamos conhecimento que o novo formato do ranking pontuará apenas nove atletas, as mesmas nove que são pontuadas com sete pontos (pontuação máxima) na temporada atual. Apenas nós estaremos sujeitas às restrições. Nós não poderemos ser contratadas livremente pelas equipes, pois cada time poderá ter apenas duas das nove, ao contrário das demais atletas que serão livremente escolhidas, o que configura clara discriminação e desrespeito.

Se assim as coisas permanecerem, nós seremos prejudicadas sob o frágil e teórico argumento de “equilíbrio do campeonato”. Nós, que defendemos a Seleção Brasileira, que nos destacamos, agora seremos punidas por isso. Não é razoável. Aliás, não há lógica nisso. Queremos ser tratadas de forma igual, sob pena de nos socorrermos ao Poder Judiciário, tendo em vista a clara e manifesta afronta a princípios constitucionais.

Além disto, as estrangeiras não serão pontuadas, o que diminui ainda mais as opções das nove brasileiras discriminadas. Vale destacar que em 14/03/2017 a própria CBV divulgou a “Seleção da Superliga” e nela há três estrangeiras: Destinee Hooker, Alexandra Klineman e Brenda Castillo. As três são atletas de alto nível e serão escolhidas livremente pelas equipes para a próxima temporada, ao contrário das nove brasileiras pontuadas. Ademais, nesta “Seleção da Superliga” há apenas uma atleta das nove presentes no ranking. Isto mostra que o sistema do ranking não tem critérios claros e não cumpre sua suposta função.

Diante do exposto, exigimos que a CBV tome providência no sentido de extinguir o ranking e parar de interferir no direito de escolha de cada atleta. As atletas precisam ter uma voz independente da confederação e ter peso igual nas votações do regulamento. Se de um lado os clubes pagam os salários, de outro são as atletas dão o espetáculo e atraem o público”.

NOTA DA CBV

“A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) tem como prática dividir decisões com seus principais parceiros e isso se repetiu, na última terça-feira (14.03), em reunião realizada em São Paulo (SP), com clubes e representante da Comissão de Atletas com objetivo de definir parâmetros e traçar estratégias para a Superliga masculina e feminina 2017/2018. Na ocasião, foi decidido pela manutenção do ranking na competição feminina com sete dos nove votos a favor, demonstrando que a entidade não toma decisões unilaterais.
A Superliga é uma competição gerenciada pela CBV, mas os clubes e atletas são os protagonistas. Por isso, ficou a critério deles esta decisão, assim como o sistema de disputa da edição 16/17, que determinou séries melhor de três jogos nos playoffs do feminino, e de cinco no masculino. O ranking foi implantado na temporada 92/93, com o objetivo de gerar equilíbrio entre os times e, de forma democrática, vem sendo mantido por escolha dos clubes participantes”.

 



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