Entrevista Vittorio Medioli: ‘Clube no Brasil não é respeitado’



O vôlei é uma paixão antiga para o italiano Vittorio Medioli. Apresentado à modalidade na escola, em Parma, nas décadas de 1950 e 1960, o garoto via o esforço em quadra como caminho para desenvolver a disciplina. A trajetória como levantador (“com um 1,70m, era a posição que me restava”) não foi longa, mas o esporte cruzaria seu caminho do outro lado do Atlântico, quase 50 anos depois. Já como empresário bem-sucedido nos ramos automobilístico e de comunicação, ele assumiu a gestão de um time de vôlei em Betim (MG) e atualmente fala com orgulho das 15 finais seguidas que o Sada Cruzeiro sustenta  (no domingo enfrentará o Sesi, no Mineirinho, em busca do segundo título da Superliga). Medioli prega a disciplina que aprendeu nos tempos de jogador como chave do sucesso.

Nesta conversa com o LANCE!, em Contagem, ele falou sobre os desafios de manter uma equipe competitiva no Brasil. E não poupa críticas à forma com que a CBV trata a Superliga e os clubes de maneira geral. Para ele, a recém-criada Associação de Clubes é o único caminho para buscar as mudanças que vê como necessárias para o vôlei.

Você é um crítico da gestão do vôlei brasileiro…

Há cinco, seis anos, fico me desgastando. Não baixo o nível, mas sempre estou cobrando. O que vou oferecer ao patrocinador? Não existe agenda, as regras mudam… No meio da temporada, não sei se vou ou não participar de um evento. Como alguém pode aceitar investir em um esporte assim? O Sul-Americano, por exemplo, é brincadeira. Para completar o torneio, decide-se pouco antes pegar o quarto, quinto time… Não dá.  Isso não existe.

O calendário é o maior problema do vôlei?

A Seleção não pode ocupar quatro, cinco meses do ano. Isso acaba com o clube. Ter calendário é essencial. Pense com a lógica do futebol. O Barcelona não pode ficar parado quatro, cinco meses sem Neymar e Messi. No vôlei, você só paga a conta e não tem time para colocar em quadra. Não faz o menor sentido.
A desunião dos clubes impede as mudanças, não?

Eles são muito frágeis. Já tentamos algumas reuniões, mas sempre houve pressão da CBV, dizendo que era  golpe. Não é golpe, não. Sempre defendemos a associação de clubes. Um cuida de uma coisa, o outro, de outra. Existem assuntos que a CBV pode fazer, outros são com a associação. O Brasil é o único país mais desenvolvido que não tem isso. Clube não é ouvido, não é respeitado. Na última reunião de presidentes que tivemos, uns cinco anos atrás, eles perceberam que não era bom para a CBV nos juntar, pois nós queremos saber das contas, cobramos…

A Associação de Clubes saiu do papel e a CBV convive com denúncias. É um momento propício para mudanças drásticas?

Parece que agora muitos clubes entenderam. Apareceram alguns com mais perspectivas, já que os projetos têm prazo mais longo. Os presidentes estão vindo e é uma tendência acontecer.

Os clubes estão sendo ouvidos pelo Conselho Gestor da CBV?

Enquanto a palavra não for da associação, não vai se consertar nada. Mas sempre houve esforço tremendo para que a associação não saísse. O que acontece hoje? Chega alguém, dita as regras, aparentemente num clima de democracia, que não existe, e ponto. Estão tocando de maneira errada. É preciso criar ambiente sustentável.

Os atletas também estão engajados…

Sem menosprezar atletas, eles têm de entrar em quadra sem essa preocupação. É louvável o esforço deles, mas é o dirigente que tem que cuidar dos interesses. Eles devem se concentrar e dar o máximo em quadra, sem  se preocupar com a política do setor. Veja, a CBV não chama os presidentes para as reuniões e chama os atletas. Quem vai resolver as questões? É uma inversão de valores.

E o papel da Globo?

Ela tem que acreditar no vôlei, tratar o esporte como business. Já tentamos, na época do Luiz Fernando Lima, falar em projeto que fosse mais interessante para eles, nós e os anunciantes. Mas no Brasil bom negócio é futebol. O vôlei é jogado num cantinho.

Como tem visto as denúncias envolvendo dirigentes da CBV?

Complicado. Eu procurei o ministro. Na verdade, procuro os ministros há anos. Não há controle para gerenciar os recursos públicos do Banco do Brasil. Vocês do Ministério do Esporte dão tanto dinheiro e não pedem prestação de conta? Isso não deve ser assim. Quem está formando atleta? É o clube. E eu não vejo a cor do dinheiro. Pago juiz, transporte, um monte de coisa. Mas essa dinheiro volta para a formação dos atletas? Para onde ele vai?

Quando assumiu o Sada/Cruzeiro, imaginava que poderia terminar uma temporada como campeão de tudo (faltam a Superliga e o Mundial)?

Não. Mas aqui meu lema é sempre apontar para o máximo e tentar alcançá-lo. E esse time entende bem.



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