Entrevista exclusiva com Talita e Larissa



“Estamos preparadas para a pressão e o favoritismo no Rio”

Foram 134 vitórias em 148 jogos pelo Circuito Mundial de vôlei de praia, um aproveitamento de 90,5%. Em 24 etapas, 13 ouros, duas pratas e um bronze conquistados. Números tão animadores que Larissa e Talita, juntas desde julho de 2014, são apontadas por nove entre dez especialistas como favoritas ao título olímpico na Rio-2016.

Era de se imaginar que o rótulo fosse rapidamente afastado pelas brasileiras. Jogar em casa, com tal peso, aumenta demais a responsabilidade. Certo? Não para Larissa e Talita.

– Acho bacana essa coisa de nos tratarem como favoritas. Mostra que até as adversárias confiam na gente. Então o fato de sermos favoritas é legal, motivante e reforça a certeza de que temos de dar nosso melhor sempre. Até ajuda dentro de quadra – diz Larissa, 33 anos, que vai para a terceira Olimpíada com a medalha de bronze em Londres-2012, com Juliana, como o melhor resultado.

Comemoração das brasileiras em Gstaad (FIVB Divulgação)

Comemoração das brasileiras em Gstaad (FIVB Divulgação)

– Estamos preparadas para a pressão e o favoritismo. A gente está se acostumando desde que se juntou. Desde a primeira derrota a gente é cobrada. Ganhamos dez torneios em sequência e quando a gente perdeu no 11º, fomos questionadas. A gente nunca deixou de acreditar na história que fomos construindo. Isso foi muito importante. Todas as vitórias não podem ser apagadas por uma derrota ou por um jogo. O vencedor não é aquele que ganha apenas jogando bem. Ele sabe ganhar jogando mal. Então em vários momentos a gente tropeçou, mas seguiu tentando – completa Talita, 32, em busca da primeira medalha olímpica em sua terceira participação nos Jogos.

Veja aqui opinião do treinador da dupla: Palavra de Reis Castro

Em Gstaad, na Suíça, Larissa e Talita falaram com o LANCE! em dois momentos: antes e depois da conquista do título. E reafirmaram que jogar com mais responsabilidade nos ombros é uma motivação, não um peso preocupante.

Dá para tratar essa preparação olímpica como perfeita?
Larissa: A gente teve um ciclo olímpico muito bom. Cada ciclo é diferente, tivemos um suporte muito grande, nossa dupla teve muitas conquistas. E isso é bom, traz bastante confiança e mostra que estamos no caminho certo. Então para essa Olimpíada a gente chega muito bem preparada.

Talita: Desde que nos juntamos planejamos chegar aqui num momento perfeito. Até agora foi uma escada. Agora estamos no último torneio antes dos Jogos e não podemos resumir tudo com o resultado aqui de Gstaad. Eu li depois da final da NBA um texto falando que geralmente quem trabalha muito, quem treina muito no fim é sempre o vencedor. Salvo algumas vezes. Não que os outros times não treinem muito. Mas a gente está trabalhando demais. A gente sempre pensou na Olimpíada, sonhando grande. Quando você sonha grande precisa batalhar muito. É uma cobrança já interna da nossa dupla.

Em Gstaad vocês derrotaram Walsh e Ross, americanas apontadas como principais rivais pelo ouro, na final.
Larissa: A gente conseguiu colocar em prática na final tudo o que planejou. A gente viu uns dois vídeos com jogos delas e fez tudo o que foi traçado. Deu certo. Começamos sacando mais na Walsh, mas no decorrer do jogo buscamos mais a April (Ross) e fizemos muitos pontos. Vôlei de praia é isso: juntar os sentimentos, os estudos feitos e conseguir fazer as escolhas certas nos momentos certos.

Dá para dizer que estão prontas para a Olimpíada?
Larissa: Estamos muito bem, fazendo o nosso melhor possível. Cada vez que a Olimpíada fica mais próxima gera uma expectativa maior, mas estamos tranquilos. O mais importante foi atingir o nosso 100% do planejamento. Agora é só jogar e se divertir dentro de casa.

Talita: Não vou dizer que está tudo perfeito, pois o dia que eu achar que está perfeito eu não vou ter mais o que querer. Sempre na busca para achar um defeitinho para poder melhorar. Mas posso dizer que estamos prontas. Essa etapa de Gstaad mostrou que estamos no caminho certo. Pudemos jogar nosso melhor.

Larissa e Talita festejam título na temporada (FIVB/Divulgação)

Larissa e Talita festejam título na temporada (FIVB/Divulgação)

Quando toca o hino nacional é inevitável pensar no ouro olímpico?
Talita: Não teve uma vez que subimos no pódio que eu não imaginei que seria o pódio olímpico, com nós duas lá, a bandeira. Acho que é assim que se constrói, visualizando as coisas. A gente treina muito o físico, o tático, mas também o mental. Aqui em Gstaad subimos mais um degrau, demos mais um passo para terminar essa história lá no Rio.

Vocês perderam muito pouco durante o ciclo olímpico. Vocês aprenderam demais após os raros tropeços?
Talita: Na derrota se aprende muito. É a mais pura verdade. Em várias derrotas nós tiramos grandes lições, nos fortalecemos, ficamos juntas, aprendemos, melhoramos como jogadoras. É aquilo: a gente não perdeu. A gente ganhou. Quando as rivais falam sobre nós sentimos que é com o respeito pelo que a gente joga. Quando o adversário é fraco o maior respeito que você pode ter é dar seu melhor. Ganhar fácil não quer dizer que está desrespeitando. Nosso time joga o tempo todo com a mesma intensidade, seja quem for do outro lado. É um pouco disso. Não nos achamos superiores. Construímos a cada ponto toda nossa história.

Vocês vivem o melhor momento da parceria?
Larissa: Acho que estamos entrando na melhor forma na hora certa. A gente tem treinado bastante, conseguiu cumprir todo o nosso planejamento da temporada. Agora é reta final, ajustes finais, a gente está jogando superbem. Esse torneio em Gstaad era muito importante para a gente ganhar confiança para a Olimpíada.

Talita: Esse torneio foi um bom resumo da história que eu e a Larissa construímos. Jogamos muito bem, não deixamos as adversárias jogarem, mas para isso a gente se doou muito (título sem perder nenhum set). A gente entrou em quadra querendo 200%, jogando 200% e a cada bola atuando como se fosse o último ponto da final.

Ganhar o ouro em casa, com torcida lotando a arena e podendo formar uma nova geração de atletas a partir do exemplo de vocês. Como vê essa possibilidade?
Larissa: Isso é o melhor de tudo. O ouro seria o máximo a atingir dentro de casa então… Mas a gente espera muito deixar um legado, para que as pessoas possam sentir esse espírito olímpico e quem sabe formar novos atletas.

Vocês não ficarão durante toda a Olimpíada na Vila Olímpica. Como foi a decisão de passar mais tempo na Urca (Centro de Treinamento do Exército)?
Talita: Ficaremos os três primeiros dias na Vila, depois Urca. Decidimos assim com a comissão técnica. Você tem de estar focado, pois tem muita coisa para fazer na Vila. Eu vivi isso. Via muita gente em Pequim que estava acostumada a acompanhar pela TV, como o Bolt (Usain, corredor jamaicano) , o Federer (Roger, tenista suíço), tirei foto com o Kobe Bryant (jogador de basquete americano). Vencedores de outros esportes, astros mundialmente falando. É uma grandiosidade estar lá. Ao mesmo tempo que você deve curtir, pois fez por merecer estar lá, é preciso tomar cuidado com tudo aqui.

Alegria de Larissa e Talita no frio (FIVB/Divulgação)

Alegria de Larissa e Talita no frio (FIVB/Divulgação)

Há 20 anos, o Brasil via Jaqueline e Sandra conquistarem o ouro olímpico em Atlanta, derrotando Adriana Samuel e Mônica na final. Você acompanhou aquele momento histórico para o esporte nacional?
Larissa: Eu morava no interior, não lembro onde estava no dia da final. Mas sempre gostei de esporte, pratiquei, estava olhando as Olimpíada ainda com olhos de uma adolescente. Tomara que depois de 20 anos a gente consiga trazer essa medalha tão esperada para o país de volta.

Talita: Eu estava começando a jogar vôlei, assisti à aquela final em Atlanta. Achei emocionante, mas não pensava nem perto da minha cabeça tentar repetir aquilo. Sou de uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul, um pouco longe da praia. Mas a vida te dá várias oportunidades. E Deus colocou perante de mim pessoas que acreditaram e abriram portas, acreditando em mim mais até do que eu. Eu não via daquela forma. Em um momento tão especial da minha carreira agora eu estou com as pessoas que me ajudaram lá atrás ainda do meu lado, me colocaram aqui. Família, treinadores e pessoa que me convenceu a mudar da quadra. É o Toroca (Walter Pitombo Laranjeiras), presidente da CBV hoje. Ele me fez sair da quadra, jogando um balde de água fria nos meus sonhos. Ele que me falou: “Jogadoras como eu, na quadra”, existem aos montes”. Eu tinha acabado de sair da Seleção Brasileira infanto, estava superfeliz, mas de repente recebi este balde de água fria. E ele disse: “Mas na praia não tem isso. Você poderia apostar”. Ele acreditou, me colocou lá. E não estava errado.

Qual característica você vê de principal na Talita?
Larissa: Paciência, o equilíbrio, isso ajuda bastante. O principal do nosso time é a confiança que uma tem na outra. Sabemos que mesmo perdendo por 5 a 0 a gente pode virar, mesmo perdendo por 17 a 14 pode virar. Nunca achamos que um jogo está perdido.

Você pensa em aposentadoria depois da Rio-2016?
Olha, eu tinha isso pronto depois de Londres. Meu marido queria que a gente tivesse um filho e depois voltasse a jogar. Falei que não queria, preferia ter um foco só e iria até 2016. Neste ano, vendo que estava tão próximo, eu me peguei pensando que ainda não vou parar depois do Rio, mas com certeza não jogarei até Tóquio-2020. O filho vem antes de Tóquio. Na verdade meus planos eram certos, mas não foram tão certos. Hoje eu não planejo fazer um outro ciclo olímpico.

 



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