Entrevista com Dante (primeira parte)



Neste domingo, a edição do LANCE! terá como um dos seus conteúdos especiais uma entrevista com o ponta Dante, da Seleção Brasileira e do RJX. Vale a pena ir à banca mais próxima e comprar o jornal.

A conversa que eu e o repórter Felipe Mendes tivemos com ele, na Praia da Barra da Tijuca, no Rio, rendeu bastante. Dante não fugiu de nenhum questionamento, não pediu para evitar assunto A ou B. Além da página dupla publicada no jornal impresso, que aborda um lado mais humano e familiar do camisa 18, tínhamos material suficiente para publicação de um segundo capítulo da entrevista.

Então, resolvi usar o blog para publicar esse material exclusivo que não entrou no jornal.

O texto começa com as declarações de Dante sobre a incrível final olímpica com a Rússia. Ele fala sobre a preparação, o jogo e os bastidores do vestiário, já com a medalha de prata no peito. Analisa também a Bulgária (surpresa positiva) e a Polônia (surpresa negativa) nos Jogos.

Em um segundo momento, o assunto passar a ser a Olimpíada de 2016. Ele faz um exame de futurologia, já pensa no Maracanãzinho lotado para os jogos do Brasil e também faz um balanço do comando de Bernardinho.

Por fim, o assunto passa a ser Superliga.

Você reviu a final contra a Rússia pela TV?
Eu não quero nem ver. Esses jogos eu prefiro não ver. Eu não costumo ver jogo pois é passado. Sei muito bem o que fiz, o que errei. Ficar vendo e torcendo mesmo sendo VT para que a bola vá para fora ou dentro. Prefiro não.

A sacada do técnico russo desarmou vocês?
Tinha tudo para dar errado e deu certo. Nós sabíamos que o Muserskiy era o jogador de confiança do Grankin (levantador). E o que nós fizemos? Eles tinham um tripé: o Muserskiy, o Mikhaylov e o Volkov. Se nós conseguíssemos minar um por um, a Rússia se perderia ao longo do jogo. E foi o que aconteceu. Isso deixou a gente um pouco chateado pois cumprimos o nosso papel de minar esses jogadores. Quando ele colocou o Muserskiy, com 2,18m, de oposto, e colocou o Mikhaylov de ponteiro, passando bem, aí lógico que a confiança deles foi retomada. Em entrevista o Muserskiy disse que foi acertando as bolas e que na quinta o time veio com ele. Eles jogando folgado são imbatíveis, têm uma força bruta impressionante. Mérito do Vladimir Alekno (técnico). O jogo estava tudo perdido e eles fizeram uma tática suicida depois de duas porradas nos dois primeiros sets. Foi ousado e deu certo.

Como foi a conversa de vocês depois do jogo? Essa foi a última Olimpíada de uma geração que ganhou tudo.
Foi uma conversa de agradecimento, de alegria apesar do velório no vestiário por conta da derrota. Conversamos e agradecemos. Ricardo, Giba, Serginho e Rodrigão… O que a Seleção é hoje se deve muito a eles. Foi muito boa essa trajetória.

Como foi chegar aos Jogos Olímpicos com desconfiança e críticas?
Engraçado que essas críticas foram somente da imprensa brasileira. A mundial colocava o Brasil como um dos favoritos. Às vezes não conseguimos entender isso. Não fizemos uma boa Liga Mundial e isso é um fato, mas nosso objetivo não era a Liga. Por que alguns críticos não falaram mal da Polônia na Olimpíada? Falaram que a Polônia era grande candidata a ganhar a Olimpíada. Não sei se ela estava preparada para disputar os Jogos. Quem foram três primeiros da Olimpíada? Rússia, Brasil e Itália. Rússia e Itália nem foram para as finais da Liga Mundial. E o Brasil chegou na final daquele jeito. Antes de falar tem de esperar terminar o ano. Mas nós tínhamos consciência do nosso potencial. Nosso momento era a Olimpíada.

Aqui no Brasil, muitas vezes, chamam de amarelão o favorito que não é campeão. Você acha que a Polônia amarelou?
Não sei se a Polônia amarelou. Uma coisa é você jogar como coadjuvante, sem pressão. Outra é jogar com pressão, sendo favorito. Eles ganharam bem a Liga Mundial, então chegaram badalados em Londres. Acredito que a Polônia ficou pronta no momento errado, enquanto as outras estavam 40%, 50%. Quando juntou 100% deu no que deu. Aí que você vê a diferença. O jogo da Polônia em Londres não foi o mesmo da Liga.

A Bulgária foi a grande surpresa?
Foi, nós fizemos um amistoso em Londres. Foi meio que diferente, um jogo muito tranquilo, mesmo a gente não estando 100%. Foi surpresa mesmo. Sem o melhor jogador (Kazyiski) e fizeram uma Olimpíada maravilhosa.

A medalha de prata de Pequim tem um gosto muito diferente da de Londres?
Foi praticamente quase a mesma coisa, teoricamente. Em Pequim ganhamos o primeiro set, eles errando muito. Depois deram a reviravolta e venceram. A prata em Londres teve esse gosto ruim porque tivemos dois match points. Acredito que não perdemos a decisão no finalzinho. Erramos uns quatro contra-ataques antes no terceiro set. Se tivéssemos colocados um no chão, talvez fosse diferente.

Esses jogos revisitam a sua cabeça? Os grandes jogos vencidos no momento decisivo.
Nós ganhamos várias partidas, campeonatos com a bola batendo na trave e entrando para o nosso lado. E dessa vez bateu e foi para a fora. Chegamos a Londres com muitas críticas, alguns falando que o Brasil nem ia conquistar medalha. Mas nós chegamos focados e a campanha que fizemos era para chegar à final. Já final é um outro campeonato, é um jogo só, uma porrada só que vale a medalha de ouro. Muita gente diz que ganhar o bronze é melhor do que a prata porque o bronze você ganha com a vitória, enquanto a prata você perde o ouro. Eu não acredito. O bronze você ganhou, mas perdeu na semifinal, perdeu a chance de disputar algo maior. Foi muito bom. Essa derrota para a Rússia vai ficar marcada porque nós tivemos o jogo dominado. A gente sentia isso do outro lado e eles conseguiram uma reviravolta impressionante, com uma formação que tinha tudo para dar errado e deu certo.

Vocês sentiam que eram marcados pela arbitragem na época em que ganhavam tudo?
Sentíamos. A gente via bola pegando nos dedos do adversário e o juiz marcado fora. Mas a cena mais inusitada foi contra a sérvia. que o árbitro da mesa levantou e mudou o ponto pois a bola tinha tocado no adversário. Mas muita gente dizia que não aguentava mais ver o Brasil campeão, que isso seria ruim para o investidor pois só um ganha. Tentavam ao máximo colocar o Brasil em situações ruins, como no esquema de viagem da Liga Mundial. Se pudessem atrapalhar o Brasil, faziam. Com o Ary (candidato à presidência da FIVB), esperamos que isso mude um pouco.

Você vai ser um líder em um ciclo especial, dos Jogos do Rio. Como você acha que vai ser essa responsabilidade?
Se antes já tínhamos uma grande responsabilidade, imagina agora? Vai ser o dobro, o triplo. Mas acredito que estaremos preparados. Será um evento em casa, o vôlei, se Deus quiser, estará nas cabeças. E ser campeão em casa terá um gosto diferente. Pretendo encerrar com a Seleção aqui no Rio, na minha casa, será maravilhoso. Pressão vai existir e temos consciência disso. Podem ter certeza que estaremos preparados para isso.

Por você o Bernardinho continua?
Continua. O Ary já falou e se o presidente falou ele deve ficar. O Bernardo ainda tem fogo para queimar na Seleção. Tem que ver com a família dele. A Fernanda quer que ele escolha Seleção ou clube.

São 11 anos da era Bernardinho e fala-se muito em desgaste na relação. Como é essa relação atualmente?
Bem tranquila. É lógico que existe atrito. Quem não tem atrito numa família, com a mulher, os pais ou irmão? Isso vai existir, somos seres humanos. E o que tiver de ser discutido, será discutido na hora. o mais importante desse grupo era que brigávamos, mas logo depois já estávamos de bem de novo. Resolvíamos na hora. O Bernardinho está há 11 anos. Ele sabe como você é e nós sabemos como ele é. Ele confia demais no grupo dele e nós confiamos nele.

Hoje tem mais diálogo do que antes?
Tem. Há 11 anos todo mundo tinha 20, 22, 23 anos… Totalmente diferente de hoje. Claro que nessa idade você tem de treinar mesmo, se aperfeiçoar. Aí você vai ficando mais velho e tem a experiência. Tem de treinar? Tem, mas não como fazia quando mais novo. O seu corpo sente mais. Você consegue treinar, mas não se recupera como quando era mais jovem.

Ficou surpreso como o Ricardinho conseguiu entrar tão facilmente neste grupo depois do afastamento?
Ricardo foi recebido de braços abertos. Nós acolhemos ele. Não teve nenhum conflito. Veio com alto astral, positivo. Veio para somar e ajudar a Seleção.

Como você vê essa nova geração que vai ter a responsabilidade e jogar a Rio-2016?
Acho que está pronta. Antes de 2016 tem o Mundial de 2014. Somos tri consecutivos. Temos vários campeonatos-testes até lá para adquirir mais experiência e confiança. mas acredito que o Brasil estará bem representado. A base vai se manter dos últimos dois, três anos. Jogadores jovens de idade, mas com experiência de torneios jogados. Se o Bernardo for o técnico, não deve fazer grandes mudanças.

O Brasil joga muito fora do país. Você acha que será importante a molecada jogar mais em casa neste ciclo, com torcida, mais pressão?
Lógico. Tem o sentimento, o frio na barriga, vem tudo na pele mesmo, aquela sensação maravilhosa. A responsabilidade de estar defendendo sua Seleção dentro de casa é grande. Tem de ganhar. Isso faz com que os jovens cresçam. Tem atleta que sente, mas outros encaram o desafio. E temos muitos que não sentem.

Já parou para pensar no Maracanãzinho lotado em 2016?
Sim. Maracanãzinho não vai caber gente. Vai faltar espaço. Ainda é cedo, mas você já começa a criar um filme na cabeça. Hoje é a minha casa. Jogo lá pelo RJX. Já conhecemos os caminhos ali dentro e eu já começo a sonhar com 2016.

Pensando lá na frente, quem você imagina que estará brigando pelo ouro em 2016?
O Weber vem fazendo um trabalho bacana na Argentina. o único problema que eu acho é que os jogadores são baixos. Quando vai brigar com os russos, búlgaros, italianos, a não ser que encaixe um dia maravilhoso, não consegue ganhar. Se for brigar na força, não dá. Mas tem jogadores de muito talento. E fiquei sabendo que está vindo uma garotada do juvenil que é até melhor dos que estão nos profissionais. Mas não deve fugir muito do que aconteceu agora. A Rússia foi campeã mundial juvenil e deve se manter bem. Itália tem uma equipe jovem, com Zaytsev, os ponteiros…

Você disse que em 2016 vai encerrar seu ciclo na Seleção. Hoje você já pensa no que vai fazer quando parar?
Cuidar da fazenda com certeza. Mas eu vivi do vôlei. Não sei fazer outra coisa que não seja ligada à fazenda e ao vôlei. Seria injusto demais eu não pensar mais nesse esporte. Tudo que ganhei devo ao vôlei. Eu pretendo um dia ser diretor ou técnico, não sei ainda. Sonho em montar um time em Goiás. Goiânia tinha de ter um time. Tem grandes empresas que têm condições de patrocinar um clube de alto nível.

Como você acha que será essa Superliga?
Acho que a última Superliga vai continuar sendo a melhor. Saíram alguns times-chave, saíram os patrocinadores que bancavam equipes importantes. Dessa vez acho que o campeão vai sair de umas cinco equipes. Cimed tinha uma base forte que não vai ter. Vôlei Futuro não vai investir, Montes Claros acabou. Alguns jogadores saíram do Brasil. Este ano deu uma reduzida na qualidade. Mas tem equipes boas vindo, como o Canoas, com André Nascimento e Gustavo.

Como você vê o RJX?
Agora temos um time mais competitivo. Não que ano passado não fosse, mas deu uma melhorada. Falar antes que vai ser campeão é muito fácil. No papel está comprovado que o RJX é bom. Agora é treinar. E este ano temos mais tempo para treinar. É o tal do problema do calendário. Chegamos de uma competição no Japão em que a Seleção jogou muito jogos em poucos dias e acham que é fácil acabar num fim de semana e já jogar no fim de semana seguinte. Isso é matar o atleta. Os times que tinham jogadores na Seleção demoraram a se acertar. Não tinha como manter o nível. Este ano é diferente. Tivemos um período de folga. Vamos nos apresentar agora e a Superliga começa só em novembro. Há tempo para descanso e para treinar.



  • Jairo(RJ)

    Daniel, o Dante na entrevista mencionou algo relativo ao problema no joelho dele?

    • Daniel Bortoletto

      sim. estará na parte “impressa” da entrevista que sairá neste domingo, no LANCE!

  • Peri

    As perguntas são bem interessantes, e imagino que no jornal devem ter sido ainda melhores, só que o Dante parece ser o tipo de atleta que vê tudo azul, divino e maravilhoso.

    O Bernardo, ao fim da olimpíada, falou em superioridade física dos russos (mais fortes e principalmente bem mais altos), e o Dante vem me dizer que não acredita em mudanças drásticas na seleção para Rio 2016. Desse jeito, fica difícil.

    Gostaria de vê-lo na nossa olimpíada, mas espero que em boas condições físicas. Para isso, o Bernardo e sua comissão técnica precisa rever suas diretrizes, porque está provado que não dá pra levar atletas rodados a todos os campeonatos, especialmente os de menor valor, como a Liga Mundial. Deixem o Dante fora disso. O cara já tem trocentos títulos da Liga.

    A gente precisa preservar Dante e Murilo se quisermos que cheguem em condições de ao menos serem titulares numa olimpíada. Não queremos mais um banco com atletas que estejam lá só pra dar moral ou fazer cara feia pra adversário. Quero jogador que entre e faça a diferença.

  • Afonso RJ

    Li toda a entrevista com o pensamento de quando seriam mencionados os problemas físicos do Dante. Terminei de ler e nada. Vim direto aqui nos comentários perguntar ao Daniel. E logo de cara o Jairo(RJ) fez a pergunta que eu ia fazer. E o Daniel já respondeu!! Esses caras são rápidos mesmo 🙂

    • Jairo(RJ)

      Afonso, nem tanto, apenas aproveitei o momento.

  • César Castro

    Daniel, obrigado pela entrevista

    Não escondo de ninguém minha veneração religiosa para com esse deuses (falo literalmente) que assombraram o mundo com a Geração de Diamante.
    O maior time de voleibol masculino de todos os tempos é verde-amarelo graças a esses caras.
    Em 2016. o Brasil poderá ser tricampeão olímpico tanto com homens como com as meninas.
    Eu só agradeço a Deus de poder estar vivendo isso de perto. Eu vi a história do esporte que amo acontecer magicamente na minha frente.
    E ainda há mais por vir. Viva o vôlei e viva o Brasil do voleibol.

    • katia

      Muito boa a entrevista, mas ele dá como certo titular em 2016. Sei não, hein….

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