Desta vez, no confronto Brasil x Bulgária, o 3 a 0 foi legítimo



2 de outubro de 2010. Dia do jogo mais vergonhoso que já tive o dever de assistir in loco. Em Ancona, na Itália, Brasil e Bulgária entraram em quadra para perder pelo Mundial. Queriam economizar uma viagem para Florença, indo diretamente para Roma, sede da fase final, além de evitar o confronto com Cuba, caindo em um grupo mais fácil com Alemanha e República Tcheca na etapa seguinte. E assim o fizeram!A Seleção jogou sem levantador (Marlon estava doente e Bruninho, gripado), com o oposto Theo pagando um mico histórico na posição. Os búlgaros pouparam alguns titulares também (Zhekov, o levantador, Salparov, o líbero). Vergonha, palhaçada e farsa foram algumas das palavras publicáveis que os torcedores que estavam no PalaRossini gritavam, após um saque cair dentro sem que a recepção se esforçasse, após um ataque errado bisonhamente ser executado… O ápice foi quando o público ficou de costas para a quadra.

“No fim, 3 a 0 para os búlgaros. E quem estava satisfeito era o Brasil. Para o esporte se envergonhar”. Assim terminei o meu texto publicado no LANCE! no dia seguinte, que teve como título o som de uma vaia: Uuuuuuuuuuuuh!

Revisitando aquela partida, lembro de algumas situações que ilustram bem o tamanho da atitude antidesportiva, que usava o regulamento ruim da competição (um fato concreto) como desculpa e motivação para a marmelada. Lembro que era unânime a sensação de que o Mundial estava armado para que a Itália, dona da casa, ao menos, tivesse um caminho tranquilo até a semifinal. E tal percepção servia como estímulo para usar as brechas no regulamento.

1) Na zona mista, os jogadores brasileiros não pararam para falar com os jornalistas. Theo, o único que tentou se explicar, rapidamente foi puxado de lá pelos companheiros.

2) O constrangimento das paradas técnicas: Bernardinho e Silvano Prandi quase não davam instruções aos jogadores. E as vaias dominavam o ginásio.

3) Na coletiva, um princípio de bate-boca entre Giba e Vladimir Nikolov, o capitão búlgaro.  O europeu se irritou quando a tradução deu a entender que ele foi irônico em uma resposta. E ele reafirmou com todas as letras: “Eu penso sim que o Brasil perdeu de propósito, por ter sido derrotado por Cuba na primeira fase e estar com medo”.

4) Algumas frases pós-jogo: “Uma mancha que eu não queria na minha carreira”, Giba. Perguntado se havia acabado de participar de uma comédia, Bernardinho respondeu: “Não. Foi uma tragédia”. Mas a frase mais marcante foi de Rodrigão, que tem como pano de fundo a expressão os fins justificam os meios. Depois de admitir que “a gente sabe que aquilo foi ridículo”, ele emendou: “Pode ter sido errado, mas foi a forma mais fácil para ser campeão”.

Ah, tudo isso para dizer que, nesta quarta-feira, 10 de setembro de 2014, pouco menos de quatro anos depois, o esporte fez com que Brasil e Bulgária voltassem a se encontrar por um Mundial. E, jogando sério, os atuais tricampeões do mundo venceram até com certa facilidade por 3 a 0 (25-15, 25-21 e 25-21), na abertura da segunda fase. Seguem invictos, muito vivos na briga pelo tetra e jogando, até aqui, sempre pra vencer.



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