Colunista convidado – Marcos Pacheco: Os ensinamentos da Liga Mundial



A eliminação do Brasil na Liga Mundial tem todo um contexto, que não pode ser esquecido. Como o Brasil já estava classificado para as finais por ser o país-sede, o Bernardo optou por fazer um revezamento durante toda competição, sempre alternando o time. Isso resulta em dois fatores: a parte boa é que todo mundo ficou em condições de jogo. A comissão técnica conseguiu avaliar um grande número de jogadores e isso foi ótimo, já que a prioridade naquele momento não era o resultado, mas sim chegar com todos os atletas bem para a fase final. O lado negativo dessa opção é que você não cria um time. Não há uma estrutura, uma base experiente que na hora da pressão tome as melhores decisões. Mas, se eu tivesse nessa situação, faria a mesma coisa. Infelizmente a estratégia não deu certo, mas, no meu ponto de vista, foi uma estratégia correta.

O nosso voleibol não está em crise. O Brasil não teve uma boa atuação contra a França, fez um jogo forte contra os EUA, mas não classificou. Deixamos de chegar a semifinal de uma competição importante, que era o objetivo de todos, tanto da comissão técnica, quanto dos torcedores. Mas isso não é uma tragédia e nem significa que tudo está perdido.

Porém, é claro que algumas coisas precisam ser repensadas e algumas estratégias precisam ser revistas. Por exemplo, um ponto que precisamos melhorar é o saque. O Brasil não saca como os europeus, que tem um saque muito consistente, com intensidade e sabem usar o flutuante. No Brasil, culturalmente não gostamos de sacar flutuante. Precisamos de um saque alternativo um pouco melhor, mais agressivo, que faça com que o adversário tenha um pouquinho mais de dificuldade no passe.

Se por um lado o Brasil decepcionou, tivemos também gratas surpresas na Liga Mundial. A primeira delas foi a França, que veio de uma liga B, venceu todos os jogos, chegou às finais correndo por fora, mas mostrou um jogo muito eficiente. Os franceses derrubaram o conceito de que altura, potência e força são primordiais no voleibol. Eles vieram com jogadores extremamente habilidosos, com destaque para o Ngapeth, que é um dos melhores do mundo. Ele está muito acima dos outros, não apenas pela potência, mas principalmente para as soluções que ele dá em bolas complicadas. Isso é o que mais impressiona e, para quem gosta de voleibol, é maravilhoso! Mesmo sem caras altos e fortes, a França mostrou que é possível ganhar uma competição internacional, porque o talento prevalece. A Sérvia também seguiu mais ou menos a mesma linha, com os irmãos Kovacevic, que têm uma habilidade impressionante. Portanto, agora é a hora de parar e refletir sobre como o talento prevalece, sobrevive e traz conquistas.

Outro ponto interessante a observar é que, desde o começo dos anos 2000, adotamos o conceito de que era necessário imprimir a maior velocidade possível ao nosso jogo. Isso começou com a Seleção Brasileira, que contava com Ricardinho, Giba, André Nascimento e outros jogadores que eram aptos a essa velocidade. Com o sucesso desse time, a busca pela velocidade virou regra em todo o mundo. Porém, nessa Liga Mundial, alguns levantadores deixaram isso um pouco de lado. Justamente pela quantidade de grandes estrelas que tínhamos em quadra, os levantadores optavam por bolas um pouco mais altas, para que os atacantes tivessem mais possibilidades. Quando a velocidade é extrema, o jogador não tem a opção de trabalhar a bola, não há tempo para nada. Com uma bola mais cômoda, os atacantes poderiam atacar na paralela, diagonal, explorar o bloqueio, largar, enfim, há mais opções.

Por fim, acredito que o voleibol brasileiro tem um time bom, estruturado e muito bem servido em todas as posições. Temos ótimas e várias opções de opostos, centrais, líberos e levantadores. Na ponta, a preocupação é um pouco maior: temos jogadores qualificados, como Lucarelli, Lipe, Murilo, Lucas Loh, mas há menos possibilidades em relação às outras posições. De qualquer forma, acredito que estamos no caminho certo. Se repensarmos alguns dos nossos conceitos, chegaremos muito bem às Olimpíadas, ainda que a Liga Mundial tenha provado que a concorrência será forte e os desafios serão enormes.

* Marcos Pacheco é técnico da equipe masculina do Sesi



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