Colunista convidado – Fofão: “Precisei sair do meu país para encontrar a alegria de jogar”



Olá, pessoal! Fico muito feliz em dividir essa passagem da minha vida com vocês. Além de ter sido uma enorme experiência de vida, fez com que eu acreditasse na minha capacidade como atleta profissional.

Tudo começou no ano de 2004. Tinha vindo de uma Olimpíada que, para mim, como atleta, foi muito difícil por não termos conquistado medalha. Cheguei a duvidar da minha capacidade, do meu talento, e me recuperar deste episódio foi bastante complicado. Por outro lado, esse ano também teve seu lado bom. Casei-me. Foi um casamento lindo e simples, do jeito que imaginei. E, ainda, tive também que tomar uma decisão muito difícil na minha vida: sair ou não do Brasil.

Nunca havia imaginado que aconteceria na minha carreira, pois achei que era feliz no meu país. Alem disso, como teria certeza de que daria tudo certo? Mesmo assim resolvi arriscar. O curioso é que tudo foi decidido no dia do meu casamento. Comuniquei meu marido, que ainda não sabia de nada, que em dois meses estaria indo pra Itália. Ele levou grande susto, mas aceitou e respeitou minha decisão. Afinal, ele havia dito sim para o padre, ou seja, já estávamos casados e, com isso, não poderia fazer mais nada, nem voltar atrás (risos).

Malas prontas e lá fui eu para outro país, sem saber falar a língua e muito menos sem saber o que me esperava, mas fui num momento em que o voleibol da Itália estava no auge, com jogadores reconhecidos no mundo inteiro. Confesso que senti medo, pois era a primeira vez longe da família e morar fora do Brasil seria uma nova experiência, o que aliviou um pouco foi o fato de ter ido com outra brasileira, que me fazia companhia. Mas, havia adquirido uma boa experiência no vôlei brasileiro e, por isso, sabia o que era bom e as coisas que precisava fazer, bastava encarar mais um desafio.

Cheguei ao Sírio Perugia, time de nome, para substituir Irina Kirilova. Ela estava deixando o clube, mas tinha uma história com a cidade, ou seja, minha responsabilidade era ainda maior, pois ela era um mito e todos ali a adoravam como jogadora.

Fui muito bem recebida, apesar de saber que teria que conquistar meu espaço e mostrar meu potencial, pois havia chegado em um time com jogadoras de alto nível, um sonho para qualquer levantadora. Aos poucos fui conquistando a confiança e a simpatia do pessoal. Vi que meu técnico, o Massimo Barbolini, passou a me olhar com admiração e, com isso, acabei relaxando e me sentindo em casa.

A partir daí, consegui atuar com a mesma alegria com que atuava no Brasil. Nosso time passou a jogar por música e não perdia para ninguém. Disputamos nove competições deixamos de vencer apenas uma. O ginásio estava sempre lotado e as pessoas iam para me ver jogar. A Irina passou a não ser tão lembrada e, finalmente, senti que era capaz e toda minha insegurança se foi. Certo dia, a própria Irina foi assistir a um jogo nosso e, quando tiramos uma foto juntas, o ginásio enlouqueceu. Foi incrível e até hoje somos amigas.

A torcida era muito fanática e nos acompanhava em todos os lugares. Inclusive, fizeram uma música em minha homenagem, que dizia: “Fofão Maravilhosa, a pérola de São Paulo”. Certamente,  a vida daquelas pessoas nunca mais foi a mesma com aquele time. Elas tinham um encanto com as brasileiras, mesmo porque éramos alegres e tínhamos uma raça que contagiava.

Fiquei no Sírio Perugia por três anos, até que fiz minha despedida. Foi o dia mais triste para mim e para a cidade, pois acabávamos de ganhar um título. Fazíamos a festa no ginásio quando ficaram sabendo que iria embora e o que era pra ser uma festa passou a ser uma tristeza geral. Pessoas pediam para eu ficar, choravam. Foi estranho, mas ao mesmo tempo gratificante, pois havia feito alguma coisa naquele lugar que as pessoas lembrariam pra sempre.

Se cheguei à Itália acreditando que a Fofão que conhecia não existia mais dentro de mim, após esses três anos percebi que foi necessário ir para um país longe do meu para descobrir que ainda era capaz, que as pessoas tinham prazer em me ver jogar. O Barbolini (técnico), pelo qual sou muito grata, chegou até a mim e disse: “Foi a maior satisfação ter trabalhado com você!”.

Enfim, precisei sair do meu país para encontrar novamente a alegria de jogar e voltar a acreditar no meu potencial, fato importantíssimo para, no ano seguinte, ser campeã olímpica. Às vezes, duvidamos e nos colocamos para baixo, achando que não somos capazes, mas basta procurar dentro de nós mesmos para que encontremos nossa força. Nunca deixe ninguém o dizer que não é capaz, pois somos mais fortes do que os outros imaginam.
Essa é minha história, meu momento.



  • CLEVERTON

    Muito forte esse relato da Fofao e me faz lembrar de Ana

  • Afonso RJ

    Maravilhoso. Tem que imprimir, mandar emoldurar e pendurar na parede!!!!!!

    • Emerson

      Concordo contigo Afonso.

      Colocaria ao lado do meu diploma de universitário.

      Mesmo sendo Osasco, sempre admirei e sempre estarei na torcida pela Fofão.

      Simplicidade é o nome dessa grande maravilhosa jogadora que tive o privilégio de ver jogando e distribuindo com maestria as bolas para as atacantes.

  • Lilika

    Apenas uma parte de sua história brilhante, emociona de qualquer maneira…realmente Atenas-2004, foi difícil (se me permite usar as palavras do zrg na ocasião: “impossível explicar o inexplicável”)…mas o mais importante de tudo isso é saber que mesmo depois de tudo aquilo que ocorreu àquela época, tornaram-se mais fortes pra 4 anos depois trazer a medalha de ouro…tendo a saúde e físico em dia, nenhuma é igual a você…mas uma hora o adeus das quadras irá acontecer, inevitável, e nos restam a ficar com saudade…paz, saúde e sucesso pra vc!!!!

  • oi fofa, parabens por sua trajetória , um exemplo de força e perseverança será muito triste ver uma grande atleta como vc deixar as quadras mas tudo tem seu tempo e na história de nosso esporte vc sempre será lembrada….

  • Josemar

    Emocionante

  • Eduardo Bernardo

    Lindo relato. Obrigado à Fofão por compartilhar isso conosco e ao Daniel por ceder o espaço.

  • Carlos

    Parabéns Fofão pela coragem e força de ir buscar sua felicidade fora do país. Você será sempre lembrada por seu carater e talento. Reconhecemos que o brasileiro tem memoria curta, mas para os amantes do volei, voce sempre será especial.

  • Léo

    FOFÃO é a melhor levantadora de todos os tempos na minha opinião. A sua humildade é um exemplo não só para todos que estão começando no esporte, como de vida.
    Ah, e a UNILEVER vai precisar dela se quiser ir além.

    • Andréa

      Concordo!!!!

    • Edu

      Uma das melhores de todos os tempos.Mas quem acompanha o vólei há mais de 30 anos sabe que a Jacqueline foi a melhor de todas.Teve a carreira arbitrariamente interrompida na quadra pela CBV.Por mais paradoxo que isso seja.E mostrou, na categoria que poderia ser considerada veterana, que poderia ser medalhista olimpica de ouro.Estava no destino.Apesar de tudo.

  • Rodrigo

    Linda história de vida!!! Fofão a maestra, deveria mostrar este relato as jogadoras do Unilever/RJ, bem parecido com a história q as cariocas vivem hj, q podem mostrar muito mais do q vem mostrando! Com toda certeza a Fofao sempre será lembrada assim como PP4 naquela conquista facil em Pequim de 2008! Será triste quando ela abandonar as quadras mas sempre será a lendária Fofão!!!!!

  • Caco

    Parabéns Fofão pela sua brilhante história! Não tive a oportunidade de acompanhar a sua carreira inteira porque assisto vôlei há pouco tempo. Entretanto, as poucas vezes que vi você jogar foram muito especiais para mim.

  • carlos antonio pereira

    Saudades de quando o campeonato italiano era um show. O time do Perugia dessa época era demais : Fofão , Walewska , Gioli , Aguero e Francia todas em seu auge. Ganharam praticamente tudo que disputaram. O mais importante foi o amadurecimento e status que a Fofão adquiriu nesse periodo ; fundamental para a segurança e estabilidade que demonstrou na conquista do título olímpico.

  • Tom Vianna

    Emocionante!

  • Leandro

    Depois da olimpíada que Fofao fez em Sidney 2000, sendo inclusive eleita a melhor levantadora da competição, seu talento inigualável já estava mais do que registrado.

  • um exemplo de pessoa humilde que e capaz de conquistar qualquer pessoa com o seu jeito de ser

  • daniel

    Parabéns Fofão, vc é incrível!!!!!! Um prazer vê-la jogar.

  • Raffael

    Incrível como é notável a simplicidade e sinceridade nas palavras dessa grande atleta. Sempre humilde e delicada. O Brasileiro e o mundo jamais esquecerão desse mito do esporte.

  • Felipe

    Fofão rainha! Emocionante!

  • Matheus

    Essa é uma lenda do esporte !
    Uma das melhores levantadoras da história !!

  • Um depoimento deste nível só poderia ser de uma pessoa como você FOFA, que pena que sua carreira esteja chegando ao fim, obrigado pelos momentos inesquecível que você nos proporcionou.

  • Marcílio Braga

    CARAMBA!
    Show de bola! Belissimas as suas palavras Fofão. Parabéns!!!

  • Rodrigo E

    Fofão, eu tive o prazer de te acompanhar aqui em bh. Você orquestrou aquela equipe maravilhosa onde ganhamos uma superliga. Nunca vou esquecer como vc nos brindou com sua elegância em quadra e precisão.
    Triste saber que está para acabar uma das mais lindas carreiras do Volei. Nunca vou me esquecer de quantos momentos fui ao ginásio do minas para torcer e vibrar com suas atuações.
    Obrigado pelos títulos e por tudo.

    Vc é muito, muito importante para o nosso volei. Te amamos FOFA.

  • Rafael

    Acho que se Fofão estivesse aqui escrevendo sobre sua última ida ao supermercado o relato seria válido, tamanho é o legado positivo que essa atleta proporcionou ao vôlei brasileiro. Felizmente, ela escolheu relatar um episódio importante e bonito de sua longa trajetória. Parabéns pela carreira exemplar!

  • Fernando

    Até lacrimejei. Grande Fofão! Humildade e genialidade juntas é pra poucas pessoas.

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