Colunista convidado – Ana Moser: A hora do esporte



Passadas as eleições, é hora de voltar nosso foco para alguns dos principais desafios que a presidente reeleita Dilma Rousseff terá de enfrentar ainda nesses meses que restam de 2014 e nos próximos quatro anos, como o esporte no País.

Nós, da Atletas pelo Brasil, estamos trabalhando de forma estruturada desde os Jogos Pan-Americanos de 2007 para que nosso País melhore por meio do esporte. Viemos construindo e defendendo uma plataforma junto ao governo, em âmbito federal, estadual e municipal, para que a pasta do esporte seja considerada com mais atenção e receba a importância que merece. Nesse período avançamos muito em termos de debate, estruturação e planejamento e seguimos um caminho fundamental, tanto para a população quanto para os gestores públicos. Porém, ainda estamos longe de onde deveríamos estar.

No início de agosto, divulgamos uma carta aberta a todos os candidatos à presidência da República. O documento teve impacto nos programas de governo dos postulantes ao cargo e mantivemos conversa com eles. Esperamos maior reconhecimento da importância da estruturação de um Sistema Nacional de Esporte na gestão e no funcionamento, especialmente em relação às pessoas que façam com que o esporte aconteça de Norte a Sul no País. Queremos aprofundar e amadurecer esse entendimento.

A nossa visão dos benefícios que o esporte traz vai muito além da ideologia simplista que as competições refletem nos resultados e nos quadros de medalhas. Acreditamos que todos têm direito à prática do esporte, à prática motora, ao desenvolvimento das suas capacidades pessoais, físicas e mentais, conforme a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Além disso, o esporte é ferramenta indispensável no desenvolvimento e na formação do caráter e dos valores. O Brasil será um grande país e, com certeza, uma potência esportiva no dia em que a cultura da prática esportiva estiver disseminada junto à população, tanto com crianças e adolescentes nas escolas quanto com os demais cidadãos em suas cidades. Uma população ativa, saudável e feliz vai gerar menos gastos aos órgãos públicos.

Existe uma tendência muito grande de se enxergar apenas o esporte que está mais visível, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Elevar o número de medalhas é muito mais oportuno. Mas a base do esporte de rendimento, de qualidade é uma nação ativa. Temos trabalhado para debater essa questão. Queremos garantir para todas as crianças do País uma carga de prática motora condizente com parâmetros internacionais. A Organização Mundial de Saúde, por exemplo, recomenda o mínimo cinco horas semanais por aluno. Sabemos, porém, que estamos muito longe do patamar em nossas escolas públicas e particulares.

Temos que resolver esse e outros itens, como a estruturação de um sistema que se alinhe em âmbitos federal, estadual e municipal e estabeleça o que compete a cada instância, qual é a responsabilidade de clubes, federações e confederações. Há que se discutir também qual é a participação da sociedade, das instituições sociais que fazem esporte para todos e tornar esse processo e fazer visível.

O brasileiro gosta de esporte e assiste na televisão, mas não tem a cultura no dia a dia, o que provoca efeito em todos as esferas, inclusive na gestão pública. Gostaríamos de ver a pasta do esporte com importância maior. Se olharmos nas cidades-sede da Copa do Mundo, a média de dinheiro destinada para o esporte é bem menor do que 1% do orçamento municipal. Se fizermos uma comparação com outras pastas que lidam com pessoas, como educação e saúde, ficará desproporcional.  Poderíamos economizar bilhões de reais por ano na saúde, principalmente quando se fala de doenças como diabetes, pressão alta, colesterol, problemas circulatórios e neurológicos, se a prática esportiva estivesse no dia a dia da população. É cientificamente provado que a atividade física regular previne esses tipos de doenças.

Quanto mais a área esportiva conseguir enxergar e atrelar seu trabalho a essas frentes, mais obterá a percepção da população e dos próprios dirigentes quanto à sua importância. É um caminho que nós da Atletas pelo Brasil temos apoiado e contribuído com uma série de instituições que estão na mesma empreitada para desenvolver o esporte de maneira ampla.

Em 2013, conseguimos que a Lei Pelé fosse alterada com uma série de questões importantes, como a transparência na prestação de contas e contratos, participação dos atletas nos processos eleitorais das federações e confederações e nas discussões sobre as regras e a estruturação dos campeonatos e de instituições esportivas. A vigência começou em abril desse ano, exceção à maneira com que os atletas devem participar do processo eletivo. Só temos a ganhar com a participação e o amadurecimento político da classe dos atletas.

Mais recentemente, apoiamos um movimento para estabelecer um acordo setorial, entre as empresas que patrocinam o esporte, para também exigirmos o cumprimento dos parâmetros que constam em lei a respeito das entidades patrocinadas. Ou seja, existe um movimento em curso e estamos caminhando para melhoria dessa estrutura de gestão do esporte. Não será processo rápido, mas criará mudanças significativas em nosso País. Queremos contar com o governo para alcançarmos o objetivo de um futuro melhor para o esporte afim de que o Brasil seja um país mais saudável.

*Artigo escrito com exclusividade ao LANCE! por Ana Moser, presidente da Atletas pelo Brasil e Instituto Esporte & Educação, publicado nesta quinta-feira



MaisRecentes

Seleções disputarão amistosos pelo país antes dos Mundiais



Continue Lendo

O adeus do genial genioso Ricardinho



Continue Lendo

Fernanda Tomé é novidade em nova lista para o Mundial



Continue Lendo