Coluna: Um dia o brasileiro valorizará o vice?



O segundo colocado nada mais é do que o primeiro dos perdedores.

A frase acima, com pequenas variações sem mudar o sentido, é atribuída ao piloto argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial de Fórmula 1, e foi repetida algumas vezes por dois gênios brasileiros do automobilismo: Ayrton Senna e Nelson Piquet.

Contemporâneos e rivais nas pistas, eles conquistaram três títulos mundiais cada levando a tal lógica muito a sério. Graças aos dois o Brasil mudou de patamar na história da F-1. Graças aos dois, também, Rubens Barrichello e Felipe Massa conviveram (e ainda convivem) com piada, memes e desdém por terem sido “apenas” vice-campeões na mesma categoria anos depois.

O exemplo da Fórmula 1 me ajuda a trazer a discussão para o vôlei. Brasil e Itália são os atuais vice-campeões mundiais masculino e feminino de vôlei, respectivamente. Por aqui, a derrota para a Polônia na decisão por 3 sets a 0 fez o time de Renan Dal Zotto voltar para casa sem festa, com gosto amargo e com muitas cobranças. Aquela nítida sensação de que o resultado não foi bom, com as redes sociais, em sua maioria, bombando com críticas e pedidos por mudanças drásticas.

Já o vice-campeonato mundial feminino da Itália após derrota para a Sérvia, por outro lado, teve um desfecho muito diferente. Já na chegada do time após a competição no Japão, centenas de torcedores fizeram uma linda recepção no Aeroporto de Malpensa, em Milão. Dias depois, o time foi recebido, em Roma, por Sergio Mattarella, Presidente da República, com um discurso de orgulho nacional pelo resultado obtido.

Recepção italiana na volta do Mundial (Divulgação Fipav)

E aí volto ao questionamento do título desta coluna. Será que um dia veremos por aqui a valorização do segundo colocado?

Eu gostaria de ser otimista e dizer sim. Mas infelizmente voto constrangido no não. O Brasil está longe de ser uma potência esportiva, não existe uma política nacional para descoberta e lapidação de talentos e o alto rendimento desperta para uma realidade bem diferente daquela dita por cartolas antes da Rio-2016. Isso deveria valorizar ainda mais os bons resultados, seja ele ser campeão ou vice em uma grande competição.

O vôlei, para piorar, acostumou mal a torcida e o público em geral ao frequentar o primeiro lugar do pódio em todas as grandes competições nos últimos 15 anos. Desta forma nos habituamos a tratar vices ou medalhistas de bronze como “amarelões”. Injusto demais no meu modo de ver e analisar o esporte.

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