Caso Tifanny vira palanque político. E isso desvirtua uma importante discussão



Bastaram uma boa atuação de Tifanny pelo Sesi Bauru e uma declaração infeliz do técnico Bernardinho para a presença da primeira transexual a atuar na Superliga feminina voltasse a ser questionada.

Após o ex-treinador da Seleção Brasileira ter um vídeo vazado chamando Tifanny de homem depois de fazer um ponto no ataque, o assunto atraiu olhares de políticos, cientes de que o polêmico assunto dá visibilidade, principalmente entre os eleitores conservadores.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente da República, usou as redes sociais no fim da semana passada para se posicionar. Sem citar o nome de Tifanny, ele escreveu: “É inaceitável e ridículo que um homem pratique esportes em nível profissional com mulheres alegando ser uma delas. Eu não sei o porquê entidades profissionais permitem isso e até quando as atletas vão suportar”. Em outro postagem no Twitter, ele ironizou a principal competição de vôlei chamando-a de “Superliga meio feminina”.

Nesta terça-feira, o deputado estadual Altair Moraes, do PRB, apresentou um projeto estabelecendo o sexo biológico como o único critério para a definição do gênero entre atletas em partidas esportivas oficiais no Estado de São Paulo. Ou seja: ele quer proibir a atuação transexuais. O projeto irá para votação no plenário da Assembleia Legislativa e a lei entrará em vigor 180 dias após sua publicação.

O texto do projeto prevê que o descumprimento da lei por federação, entidade ou clube renderá multa de até 50 salários mínimos.

Atualmente, a Confederação Brasileira de Vôlei segue a regulamentação do Comitê Olímpico Internacional para permitir a atuação de Tifanny entre as mulheres. Testes hormonais mostram que a quantidade de testosterona dela está dentro do limite permitido. A Federação Internacional de Vôlei também tem estudado desde o ano passado a participação de transexuais na modalidade.

Quartas de final da Superliga

Tifanny defende Bauru desde a temporada passada (Divulgação)

Especialistas em preparação física e fisiologistas ouvidos pelo blog nos últimos meses admitem que o tema é polêmico, mas atualmente segue as regras vigentes. Eles apontam a ausência de parâmetros de comparação para o aumento da dificuldade de um posicionamento. Com mais casos como o de Tifanny seria possível comparar níveis de testosterona e assim analisar se o número usado atualmente pelas entidades internacionais precisa ser reduzido.

Enquanto a discussão ainda estiver dentro dos limites da ciência, fica claro que o posicionamento político será motivado exclusivamente por questões ideológicas. E isso não ajudará em nada o avanço da importante discussão sobre gênero, direitos iguais, inclusão e consequente luta contra o preconceito.



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