Caso Michael: reflexões sobre vôlei e a sociedade em que vivemos



Na coluna Saque deste domingo, 10 de abril, no LANCE!, um balanço geral sobre o assunto Michael, algo delicado e que merece um debate.

Michael. Nome que o torcedor pouco especializado no vôlei talvez nunca tivesse ouvido falar antes do início da última semana. Hoje, ele virou sinônimo de defesa contra o preconceito. A bandeira colorida ganhou um rosto, alguém para se identificar na luta de grupos cada vez maiores contra tabus que a sociedade pseudo-moderna ainda possui em suas raízes.

É delicado escrever sobre o assunto e qualquer vírgula fora do lugar pode gerar uma distorção de quem está lendo. Assim, apesar de o espaço maior do que o normal, vou me ater ao vôlei, com experiências que vi e vivi em mais de uma década de profissão.

Foi válida a campanha que o Vôlei Futuro resolveu abraçar. As ações de marketing para o jogo de ontem contra o Sada/Cruzeiro foram pontuais e bem sucedidas. O líbero Mário Júnior com uma camisa nas cores do movimento homossexual, gandulas vestidos de rosa, mesma cor dos “bate-bates” que a torcida empunhou nas arquibancadas do Ginásio Plácido Rocha, além de um bandeirão de luta contra o preconceito. Perfeito.

Mais do que isso, louvável a coragem de Michael ao assumir ser gay perante o público em geral, algo que o mundo do vôlei já sabia há vários anos. A opção do atleta nunca impediu que fosse titular do extinto Banespa por várias temporadas, que tivesse chance de treinar com a Seleção e hoje estivesse em um dos clubes que mais investem no vôlei.

Também é fato de que parte da torcida do Sada/Cruzeiro passou dos limites, no jogo em Contagem, na tentativa de desestabilizá-lo com xingamentos preconceituosos. Discutir uma punição também é válido, desde que passe a ser empregada sempre que isso acontecer. E, para mim, o problema está aqui. O que aconteceu na Região Metropolitana de BH é comum em várias cidades. Nesta semana, procurei ouvir atletas que já atuaram com Michael. E até em Araçatuba, palco da bela festa em defesa da igualdade ontem, ele já foi xingado anos atrás.

O que quero dizer é que não existe uma torcida preconceituosa, como quiseram rotular os cruzeirenses durante a semana.  Existe um país que não sabe lidar com as diferenças. Existe muita gente influenciável pelo cara que está ao lado. Se ele grita “bicha”, desencadeia uma onda ao seu redor, muitas vezes inflamada pela paixão cega pelo time local. E é assim, infelizmente, no vôlei, no futebol, no basquete, no handebol…

Espero que ninguém chegue até esta parte do texto acreditando que eu apoio o preconceito. Só procuro ser justo, evitando generalizações. E nisso Sada/Cruzeiro e Vôlei Futuro erraram durante a semana. Troca de acusações sobre questão pontuais, como falta de lugar marcado no ginásio para ver o jogo, dificuldade para conseguir horário para treinar na casa do rival, falta de educação de integrantes das equipes, suposta falta de segurança. Intermináveis notas oficiais, que escancaram ao público que o vôlei, esporte que se orgulha por ser um dos mais profissionais do país, ainda trata muita coisa com amadorismo.

Por fim, o jogaço de ontem teve Michael como melhor em quadra e vitória do Vôlei Futuro. Que no terceiro e decisivo duelo, a gente fale apenas do duelo em quadra.



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