Memória: Brasil encerra hegemonia do Peru em 1991



As décadas de 1970 e 1980 marcaram o domínio da seleção do Peru no cenário sul-americano feminino. Entre 71 e 89, as peruanas conquistaram nove dos dez campeonatos continentais adultos disputados. O time ainda tinha no currículo a medalha de prata na Olimpíada de Seul, em 1988 (uma derrota de virada para a antiga União Soviética por 3 sets a 2, com 17-15 na parcial final). Rosa Garcia, Gabriela Perez, Natalia Málaga e Cecilia Tait eram os grandes nomes.

Em 91, o Brasil, com o início de uma nova geração, buscava colocar fim à hegemonia do Peru na edição com sede em São Paulo. E mais: o título sul-americano garantia presença na Olimpíada de Barcelona-92.

– Enfrentar o Peru naquela época não era nada simples porque existiam jogadoras realmente incríveis e que faziam muita diferença na hora decisiva. Enfrentar uma seleção como essa era especial, era um jogo do mais alto nível técnico. Nós queríamos mudar este cenário e quebrar esse tabu – relembra Fofão, na época com 21 anos.

Fofão em ação contra o Peru durante o segundo set da decisão (Reprodução de TV)

Até a edição anterior do Sul-Americano, dois anos antes, os grandes ícones da Seleção Brasileira eram Isabel e Vera Mossa. Mas elas não estavam mais presentes. Wadson Lima havia assumido o comando do time verde-amarelo em 91, após uma das maiores tragédias do vôlei nacional. Inaldo Manta, treinador do Brasil, se suicidou em casa, em São Paulo.

Manta dirigia também a Sadia, um dos grandes times do país na época. E tinha um estilo diferente de comandar, dando muito espaço para as atletas opinarem antes de tomar decisões importantes. E assim cativou a nova geração que surgia.

O Brasil passava a dar mais espaço para Fernanda Venturini, Ana Flávia e Ana Moser na base titular, além de Hilma, Leila e Fofão como opções.

Fernanda Venturini era a capitã da Seleção (Reprodução de TV)

– O grupo brasileiro era extremamente profissional, de uma concentração e disciplina impressionantes. A gente se dava bem. Se fosse pra brincar era depois do treino. No treinamento era foco total e isso me fazia admirá-las muito por esse comportamento. Eu era uma novata na Seleção, tudo era novidade para mim. Cheguei logo de cara fazendo parte de um grupo cheio de estrelas, pra maioria era mais um título para o currículo. Para mim era o meu primeiro título na Seleção, o começo da minha história. O que eu mais tinha eram sonhos. Sonho de fazer parte deste grupo para próxima competição, sonho de subir novamente no pódio, sonho de ganhar mais títulos e sonho de um dia ser titular – conta Fofão.

Wadson Lima mandou à quadra naquela final continental Fernanda Venturini (capitã do time), Ana Moser, Cilene, Ida, Tina e Ana Flávia. No banco de reservas, Fofão, Kerly, Hilma, Ana Lucia, Adriana Samuel e Leila.

Bloqueio brasileiro tenta parar ataque peruano (Reprodução de TV)

Já o Peru, treinado pelo coreano Man Bok Park, escalou Rosa Garcia, Gabriela Perez, Margarita Delgado, Denise Fajardo, Miriam Gallardo e Natalia Málaga.

– Foi a minha primeira competição pela Seleção realizada no Brasil. Me lembro que era muito tenso o clima pois na época o Peru era a seleção a ser batida, existia muita ansiedade por parte de todos, por ser um jogo muito difícil. A seleção peruana era até o momento muito superior e com jogadoras consideradas melhores do mundo – diz Fofão.

A final, em um domingo, teve transmissão ao vivo pela Rede Globo. Narração de Luiz Alfredo (como eu gostava do estilo dele!), comentários de Luiz Fernando Lima e Paulo Russo. O Ibirapuera estava lotado.

Encontrei no YouTube o vídeo completo da partida. Para os mais velhos, a viagem no tempo ao ver (ou rever) aquelas imagens é uma delícia. Para os mais novos, conhecer o vôlei de quase três décadas atrás será um choque: existia a vantagem (nem todo lance era ponto), a velocidade do jogo era diferente, era raro ver jogadoras tão altas, muitas delas atuavam em várias posições…

Para quem quiser ver o vídeo na íntegra, aqui vai um alerta de spoiler sobre o resultado do jogo. Deixe de ler daqui para baixo e continue após o fim da transmissão.

O Brasil começou o jogo de forma avassaladora. Um primeiros set quase perfeito, fechado em 15 a 5. Como atacava Ana Moser!

Mas aquela facilidade toda não representava o nível do Peru. E a segunda parcial foi bem diferente. O troco das então vice-campeã olímpicas foi à altura: 15 a 9.

Já o terceiro set foi o mais nervoso de todos. Sugiro que assistam aos pontos finais para melhor entendimento. Foram alguns ótimos rallies, demonstrando o nível das duas equipes. Cilene foi decisiva para o Brasil fechar em 17 a 15.

O quarto set guarda um lance raro: um bloqueio de Ida pouco depois de perder o tênis de um dos pés. E Ida acabou sendo a responsável pelo ponto decisivo, em um bloqueio, para fechar a partida em 15 a 13.

Ana Moser comemora após o ponto final (Reprodução de TV)

Título sul-americano após dez anos e vaga olímpica garantida para o Brasil.

– A Seleção Brasileira treinou muito para sair com uma vitória naquele Sul-Americano. Tinha muita vontade nos olhos das jogadoras e isso foi do começo ao fim. Foi uma alegria imensa o título por vários fatores: vencer a seleção peruana em casa pela primeira vez, conquistar a vaga para a Olimpíada dentro de quadra, colocar o vôlei feminino no lugar mais alto do pódio. Ali começava a surgir uma geração que mudaria o cenário Internacional e entraria pra história. Não tinha como não festejar essas conquistas. Foi um título muito comemorado – finaliza Fofão.

CURIOSIDADES

– Prestem atenção no fim do vídeo. A Globo interrompeu a transmissão do Domingão do Faustão para mostrar a premiação das jogadoras.

– Luiz Fernando Lima, um dos participantes da transmissão, é um dos executivos mais importantes da Federação Internacional de Vôlei atualmente. Ele ocupa a função de secretário-geral.

– Adriana Samuel faria história no vôlei de praia. Ao lado de Mônica, ela disputou a final 100% brasileira contra Sandra Pires e Jaqueline em Atlanta-96. Depois da prata, ela voltaria ao pódio olímpico em Sydney-2000, com o bronze.

– Foi a primeira classificação direta do vôlei feminino brasileiro para uma Olimpíada. Nas outras ocasiões, o Brasil entrou nos Jogos por conta de boicotes ou desistências.

RELEMBRE TAMBÉM

– O título mundial juvenil feminino de 2005, uma geração com Fernanda Garay, Thaísa, Adenízia…



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