As entrelinhas da saída de Ary Graça da CBV



Ary Graça, que estava licenciado da presidência da CBV desde que assumiu a FIVB, renunciou ao cargo na confederação nacional e assim não poderá reassumi-lo, sem, ao menos, enfrentar uma nova eleição. O fato foi divulgado hoje, durante reunião da entidade com as federações estaduais, em João Pessoa, na Paraíba. http://www.lancenet.com.br/volei/Ary-Graca-Confederacao-Brasileira-Volei_0_1101489908.html  Este é o resumo puramente factual do acontecimento do dia. Ponto, parágrafo.

Mas é bem mais do que parece. Interpretações, busca por respostas nas entrelinhas e movimentações intensas nos bastidores acontecem durante este momento turbulento vivido pelo vôlei brasileiro, iniciado pela série de denúncias feitas por Lúcio de Castro, no site da ESPN Brasil. Para refrescar a memória de alguns, as ótimas reportagens investigativas do jornalista mostraram indícios de desvios que somam R$ 20 milhões da verba de patrocínio do Banco do Brasil (dinheiro público) para empresas de dirigentes da cúpula da CBV (Marcos Pina e Fábio Azevedo), que ora estavam trabalhando NA entidade, ora PARA ela. Em outras palavras, um escândalo dos grandes em um esporte que batia no peito por ter uma gestão diferenciada dos demais. Todas elas merecem apuração e punição, casos os órgãos competentes assim julgarem.

Vou dividir o post agora em dois tópicos:

1) Estar licenciado da CBV não queria dizer que Ary estava completamente afastado da entidade. No ano passado, durante a crise entre clubes, patrocinadores e jogadores, ele esteve presente em várias reuniões. Toroca, o vice de tantos anos que o sucedeu e atualmente aparece como atual presidente, abria formalmente a reunião. Poucas palavras e microfone nas mãos de Ary, que passava a comandar o encontro. É um fato, podem negar à vontade, caso queiram. Muitas decisões precisavam do crivo dele. Tanto que, durante um tempo, a sede da CBV, no RJ, passou a ser uma sub-sede da suíça FIVB, com logomarca e tudo na entrada. O expediente, durante as viagens dele ao país, acontecia na confederação brasileira. E cercado das mesmas pessoas de confiança de antes.

Minha opinião: ele deveria ter largado o osso da CBV, como se diz na gíria, assim que assumiu a FIVB. Romper oficialmente todos os vínculos, deixando a CBV andar com as próprias pernas, até porque Ary sempre gostou de dizer que seu modelo de gestão permitia que os gestores de cada área tivessem plena autonomia.

2) A CBV diz em sua nota oficial que Ary escreveu, datou, assinou e entregou a renúncia em dezembro. O presidente da FIVB, em nota oficial, dá a mesma versão.

“Ora bolas, qual o motivo para esperar até meados de março para tornar o fato público?”

“Peraí, vocês querem que a gente acredite nisso, após essa série de denúncias?”

Já ouvi essas duas perguntas hoje e ambas são pertinentes. Com o nome envolvido no escândalo, Ary vai convencer pouca gente da veracidade da entrega no ano passado. Ficou parecendo, claramente, uma saída forçada. E ela interessa a quem? Daí entra a primeira pergunta deste tópico e a resposta ganha força no sempre delicado mundo dos bastidores. Fazer isso agora deixou Ary ainda mais no olho do furacão, favorecendo bastante os atuais gestores da entidade. Reforça o sentimento de culpa dos antecessores, abrindo caminho para uma reformulação ainda maior em cargos-chave da entidade que ainda possuem pessoas de confiança de Ary.

Durante a semana, Erich Beting, blogueiro do Uol, publicou que Bernardinho era um dos responsáveis pela série de denúncias. O treinador desmentiu ter qualquer relação com isso. Totalmente compreensível a reação. Eu faria o mesmo, diga-se de passagem. O fato é que a relação entre Ary e Bernardinho vinha se deteriorando há anos. E chegou ao ponto de a presença do técnico nos Jogos Olímpicos de Londres ter sido colocada em dúvida, meses antes da competição. Os jogadores sabiam da possibilidade de uma mudança. A CBV, inclusive, entrou em contato com um clube brasileiro e perguntou sobre a liberação de seu treinador, caso Bernardinho saísse. O clube deu o aval, mas a substituição nunca aconteceu. Isso não quer dizer, porém, que a relação entre o dirigente e o treinador tenha melhorado no atual ciclo olímpico.

“Eles se aturam faz tempo”. É a frase mais ouvida entre gente que circula entre os dois personagens. Bernardinho ganhou tudo como treinador da Seleção. TUDO mesmo. Faz um trabalho brilhante há mais de uma década. Como chefe dele, Ary sabia melhor do que todos nós sobre o peso e a importância de Bernardinho. E assim eles mantiveram um relacionamento “cordial” até agora.

Para terminar por aqui este post maior do que o habitual, a percepção de pessoas das mais variadas formas de atuação no meio do vôlei é a seguinte: vem mais coisa por aí! E mudanças importantes já começam a ser desenhadas a partir dos primeiros desdobramentos.

Minha opinião: Um esporte tão vencedor (dentro de quadra) tem a obrigação de ser passado a limpo, caso queira mesmo ser um exemplo positivo. E não me importa o tamanho da vassoura, nem o tempo necessário para limpar cada cantinho. Doa a quem doer.



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