10 perguntas – André Nascimento: “Ideia é encerrar a carreira agora”



Um dos últimos remanescentes do início da era Bernardinho na Seleção Brasileira masculina está prestes a se aposentar.

No último dia 4 de março, André Nascimento completou 39 anos. E nesta entrevista ele adianta o fim da vitoriosa carreira ao término da participação do Vôlei UM Itapetininga na Superliga B, que neste fim de semana terá a disputa da última rodada da fase de classificação. De preferência, o adeus acontecerá com o acesso do time à elite nacional (terá de ser campeão ou vice).

André Nascimento fez parte da primeira convocação de Bernardinho em 2001, o início da geração de Gustavo Endres, Giba, Serginho Escadinha, Dante, com alguns remanescentes do título olímpico de 92: Maurício, Giovane, Marcelo Negrão. Já na disputa da Liga Mundial daquele ano, o oposto canhoto foi eleito o melhor atacante da competição. E daí para frente se firmou como um dos diferenciais da equipe mais vitoriosa do vôlei.

Com passagens por Minas, Suzano, Modena (ITA), Trentino (ITA), Panathinaikos (GRE), Montes Claros, entre outros, Canha, como é conhecido, ganhou o ouro olímpico em Atenas-2004, dois Campeonatos Mundiais (2002 e 2006), seis edições da Liga, três Superligas, além de Copas do Mundo, Pan-Americano, Sul-Americanos.

Ainda como repórter do LANCE!, tive o privilégio de cobrir in loco algumas dessas conquistas. E não importava o tamanho do jogo. André Nascimento se comportava do mesmo estilo “low profile”. Alguns companheiros diziam que enfrentar a Itália na final olímpica ou o Chile na primeira rodada do Sul-Americano era quase a mesma coisa para o oposto. Talvez por isso pressão não era algo que ele demonstrava sentir.

André Nascimento

André Nascimento está jogando em Itapetininga. Time está na disputa por vaga na elite do vôlei brasileiro (Divulgação)

Abaixo a entrevista com o oposto:

1 – Da geração campeã mundial em 2002 e depois campeã olímpica em 2004, você é um dos remanescentes ainda na ativa (Serginho Escadinha, Dante e Ricardinho são os outros). Qual o segredo da longevidade no seu caso?
Não sei se exatamente tem um segredo para a minha longevidade. Eu sempre fui um cara que me cuidei bastante, tanto nas folgas eu sempre procurei fazer musculação, cuidar da minha parte física mesmo. Mesmo estando de férias eu procuro fazer isso, sou um cara também que não saio muito, não tenho vícios, pode ser que isso contribua, acredito que é mais por isso que eu esteja jogando, e a cabeça boa também para estar treinando e sinto falto quando estou parado.

2 – Você mantém atualmente contato com eles, conversa com alguma frequência?
A gente conversa por mensagens. Mas é muito difícil, só quando a gente se encontra em alguns locais, em um jogo e outro, no aeroporto. É meio complicado a gente se encontrar pois cada um agora está no seu canto, cada um tem seu trabalho, sua família também. Tem um grupo com o pessoal de Atenas que se comunica às vezes. Com alguns mais chegados eu falo, o Dante, o Rodrigão, que são da minha geração. Mas basicamente é por mensagem e mais quando a gente se encontra.

O inesquecível time do Brasil campeão olímpico em Atenas-2004. André está entre Giba e Serginho (Divulgação)

3 – Você completou no fim de semana 39 anos. Até quando pretende jogar? Consegue fazer planos a longo prazo os toma decisões anuais atualmente?
Eu pretendia jogar até o Campeonato Paulista, esse era meu primeiro objetivo aqui no projeto, mas eu resolvi fechar o ciclo esse ano. Eu achei mais conveniente e mais legal estar junto com o pessoal no mesmo grupo e ir até o final junto com eles. Achei importante. Mas a minha ideia agora, depois dessa temporada, é encerrar mesmo. Eu procuro fazer plano a longo prazo, porque gosto de estar perto da família e a minha ideia é essa: sempre estar o mais tempo possível com eles. Se der aqui é um lugar onde eu pretendo ter planos, trazer a minha família e permanecer por mais tempo.

4 – De tantos jogos importantes disputados pela Seleção, qual o mais marcante para você?
Foram vários jogos importantes mesmo, mas na verdade eu tenho dois que marcaram bastante. Um deles é a primeira Liga Mundial em 2001, que marcou bastante, foi a minha entrada na Seleção, era uma responsabilidade muito grande e eu entrei logo naquele ano e fomos campeões. Foi ali que abriu as portas tanto para mim profissionalmente, tanto para Seleção também. E lógico as Olimpíadas de 2004 que coroou tudo isso, todo o trabalho e todo o meu sonho também de chegar à Seleção e disputar uma Olimpíada, o ápice de qualquer jogador.

5 – Tem algum arrependimento ou frustração nestas duas décadas de carreira profissional?
Não tenho nenhum arrependimento ou frustração. Algumas derrotas fazem parte dessa caminhada, isso daí o atleta tem que se acostumar e saber lidar, é o ponto principal. Eu aprendi muito, não me arrependo, e em algumas situações eu aproveitei as derrotas para crescer profissionalmente. Então não me arrependo, é a profissão que eu escolhi para mim, e sabia das dificuldades e encarei da melhor forma possível. A gente corre muitos riscos, pode ter uma lesão, uma derrota que não se esperava, então a gente tem que saber lidar com isso.

6 – Falando sobre o projeto de Itapetininga. Gostaria que contasse como surgiu o convite de jogar aí, como foi a recepção e como você avalia seu desempenho.
Um projeto muito legal, já conhecia o Rodrigo Moraes, já jogamos juntos em Suzano, jogamos na Seleção Brasileira juvenil, é um cara que eu sempre tive contato e sempre foi o sonho dele montar um time de vôlei. Então ele já vinha falando comigo uns três anos antes de começar esse projeto. Então ele me convidou para que eu pudesse participar junto com ele, ajudando, e eu também numa oportunidade de continuar a minha carreira, finalizando dentro de quadra, e podendo estar em um time de vôlei após me aposentar. Então foi uma oportunidade bacana, legal que eu aceitei, fui muito bem recebido, a cidade abraçou o projeto muito bem. Ultrapassou as nossas expectativas em relação a isso, e com certeza está sendo muito legal tanto o nosso desempenho, logicamente que a gente ainda não garantiu nada ainda o acesso e tal, mas o projeto em si está sendo bem pensado, e assim vamos degrau a degrau.

7 – Voltar para a elite da Superliga é seu grande combustível para seguir jogando atualmente?
Com certeza. Foi um dos motivos também que eu resolvi ficar com eles para ajudar e terminar esse ciclo como eu falei antes. O que eu puder ajudar e passar experiência, os mais jovens estão jogando muito bem, então acho que de repente eu estando ali com eles para dar um toque, ou de repente fazer algo legal para o time, é com certeza uma motivação para mim. E seria muito legal o acesso para a Superliga A. Para nós iria coroar o projeto que está iniciando agora.

8 – Quando você surgiu no Minas, qual jogador mais velho foi mais importante para você dando dicas, passando experiência? Você, atualmente, consegue fazer o mesmo com os mais novos aí em Itapetininga?
Sim, tinham vários. O primeiro ano que a gente jogou a Superliga, na verdade foi só a molecada também, mas no segundo ano o Minas contratou um time com nomes de peso: o próprio Mauricio, levantador, que jogava nessa época. Todo mundo queria jogar com ele, pois ele levantava as bolas perfeitas. Tinha o Carlão, o Giba também. Eu também procurei me espelhar muito em algumas atitudes dos jogadores. Alguns falavam, davam toques, mas o mais importante são as atitudes, a forma de como o jogador encara, a disciplina. Tudo isso os mais jovens sempre olham.

André Nascimento com o xará Heller atuando pela Seleção (Divulgação)

9 – Quais são seus planos depois da aposentadoria?
Os meus planos são estar aqui mesmo no projeto. Eu aceitei o convite exatamente por isso, me deu essa chance de continur no voleibol de forma indireta, não dentro de quadra. E quero continuar aqui no projeto, poder contribuir, passar minhas experiências, poder dar mais ideias. Vou me aposentar, mas ao mesmo tempo estar no meio do vôlei que para mim vai ser muito legal também. Vou continuar com o vôlei que é o que eu já faço a minha vida toda.

10 – O Kalel, seu filho, vai seguir seus passos? Ele está jogando vôlei?
O Kalel adora, eu já o trouxe aqui para Itapetininga, ele já conheceu os jogadores, fiquei com ele na quadra. E ele gosta muito de esportes, faz futebol, natação, taekwondo. Eu gostaria que ele jogasse, mas independentemente de seguir carreira ou não, eu vou sempre incentivá-lo a praticar esportes e com certeza eu estando aqui no projeto vai ser com certeza um incentivo maior para ele continuar no vôlei.

QUEM É ELE

Nome: André Luiz da Silva Nascimento
Data e local de nascimento: São João do Meriti, Rio de Janeiro, em 4 de março de 1979
Altura: 1,95m
Peso: 95 kg



MaisRecentes

Brasil bateu recordes no Pan. Mas os vôleis ficaram devendo



Continue Lendo

Coluna: Brasil precisa aprender a perder



Continue Lendo

Passe virou a dor de cabeça do Brasil



Continue Lendo