Os gritos de gol foram inesquecíveis segundos de liberdade - Toco y me voy

Os gritos de gol foram inesquecíveis segundos de liberdade



Quando a ditadura militar assumiu o poder em 1976, dominou todos os estratos de poder econômico e social da Argentina. O futebol foi fundamental na agenda da ditadura militar. Ocupou um lugar importante desde o momento exato em que Videla colocou um pé na Casa Rosada e deu o pontapé inicial ao genocídio. Era necessário eliminar as pessoas que pensavam diferente, os subversivos que proclamavam as ideias anárquicas e os militantes políticos que marcavam a contraparte do poder reinante.

No mesmo dia do golpe, em 24 de março de 1976, todas as estações de rádio e canais de televisão foram colocadas sob controle militar, a programação usual foi suprimida, exceto a partida que a seleção argentina jogou (e venceu por 2 a 1) contra a Polônia.

Os conselhos (militares) entenderam, desde o início, o peso especial que o futebol tinha na cultura popular. Sabiam que era um esporte que movia paixões e multidões na Argentina. O triunfo da organização e, posteriormente, da equipe argentina, geraria um maior consenso sobre o projeto imposto pelo governo. No Estádio Monumental, Videla acompanhado de autoridades eclesiásticas declarou o “Mundial da paz” como o chamou em seu discurso na abertura do torneio.

As mães, como a maioria da população, não sabiam que muitos de seus filhos estavam sendo sequestrados a apenas setecentos metros do Monumental. A Escola de Mecânica da Marinha (ESMA) foi o principal centro de detenção, tortura e morte da ditadura. De acordo com os organismos de direitos humanos, cerca de 30 mil pessoas desapareçam durante o governo militar. Muitos jornalistas e pessoas de voz na sociedade, incluindo jogadores de futebol que denunciavam o terror, até hoje estão desaparecidos.

Dado o resultado final, alguns dos presos foram levados às ruas em carros para mostrar que ninguém se importava com eles. Que o povo finalmente comemorava uma Copa do Mundo. Muitas covas eram encontradas de um dia para o outro em cemitérios que passaram a ter controle militar e nenhuma informação sobre aqueles corpos poderia ser revelado. Governantes e jornalistas estrangeiros eram enganados por advogados do governo de Videla.

Apenas os que lutavam contra a ditadura tinham real conhecimento sobre a barbárie. Nem mesmo os jogadores, que foram obrigados a estar em total concentração, sabiam que estavam sendo usados como maquiagem para o terror. A Copa do Mundo foi uma boa oportunidade para mostrar ao mundo e ao país o gosto de Videla e da “Junta Militar”: um lugar onde se respirava “paz e prosperidade”, onde os gritos de gols ocultavam os gritos de liberdade.

Em 1977, várias organizações lançaram um boicote contra a organização do evento, liderado por exilados argentinos na Europa, que denunciaram a violação sistemática dos Direitos Humanos. Por ordem dos militares, lançaram o slogan “Nós argentinos somos direitos e humanos” e foram contratados os serviços da empresa norte-americana Burson-Marsteller y Asociados, especializados em melhorar a imagem dos governos. Foi a melhor jogada para dar uma “boa imagem” ao país e ao regime militar.

Os diferentes partidos políticos sempre tentaram influenciar e ter presença em clubes de futebol: socialistas e radicais, comunistas e peronistas. Durante a ditadura, muitos líderes fizeram todo o possível para evitar a identificação com qualquer uma das forças políticas, embora a ideologia de cada líder fosse conhecida nos clubes. Do lado dos conselhos militares, não se notou um esforço para divulgar uma propaganda com os valores que tentava promover dentro das instituições. Foi o suficiente para eles não apresentarem oposição às autoridades de fato.

Ninguém poderia negar que a Argentina tinha um time capaz de se tornar campeão; muitos de seus jogadores, incluindo Kempes, Bertoni, Fillol e Passarella, brilhariam em todo o mundo. É evidente que esta Copa do Mundo serviu à ditadura militar, de modo que durante esse período ninguém falou sobre nada além de futebol. E também se tornou um dos capítulos mais sombrios da história da Argentina. Aquele que nem os gritos desses gols hoje podem silenciar.

 

 

 



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