O que está por trás do plano de Menotti para recuperar a essência da seleção argentina - Toco y me voy

O que está por trás do plano de Menotti para recuperar a essência da seleção argentina



Menotti aposta em 'velha identidade' para reestruturação da seleção argentina


A foto de Lionel Messi olhando sem poder tocar a taça da Copa do Mundo de 2014 doeu por quatro anos. Tudo piorou com a passagem opaca da seleção argentina no Mundial da Rússia em 2018. Estreia contra a Islândia com empate e Messi errando pênalti, áudios virais, reclamações de telefones grampeados, líderes buscando holofotes e até rumores de renúncia de Jorge Sampaoli no meio da competição. Assim, a finalista por duas vezes da Copa América disputou uma classificação para as oitavas de final na qual nem sequer dependia de si mesma. A França foi muito mais e colocou fim a uma geração.

Com fracasso anunciado, César Luis Menotti, treinador da primeira conquista argentina em mundiais, retornou à seleção depois de trinta e seis anos, desta vez como diretor de todas as categorias nacionais, do grupo principal aos juniores. Em seu novo cargo, que começará a desempenhar efetivamente a partir do dia 1 de fevereiro, tentará recuperar a identidade do futebol nacional que não celebra um título a mais de 25 anos. Aqueles que se opõem à sua chegada, sugerem que o presidente da AFA, Claudio Tapia, o convocou com o propósito de se proteger sob o prestígio futebolístico que o campeão mundial possui.

– Sou daqueles que amam que o jogador saiba o que é vestida a camisa da seleção nacional. Estou empolgado com meu novo papel, há uma genética que nos distingue e acredito que devemos desenvolve-la profissionalmente. Temos que respeitar o DNA do atleta criado em nossos gramados além da nova estética tática que o mundo apresenta. No caminho do sucesso, a essência do nosso jogo foi perdida e vamos recuperá-la – contou após ser escolhido como novo diretor de seleções da AFA.

Se existe uma pessoa autorizada a falar de futebol na Argentina, é Menotti. O veterano campeão com o inesquecível Huracán de 73 e do mundo com a albiceleste em 78, buscará “recompor o relacionamento com o futebol argentino” baseado em uma organização que inclui tempos de trabalho, contratos, calendários, treinamentos e jogos. Espera baixar uma linha. Uma orientação. Não armará a equipe para ninguém. Mas o substancial não muda. O substancial continua sendo jogar bem com e sem a bola. Jogar bem atacando e jogar bem defendendo os espaços. Isso é imutável. Jogar bem. Não jogar lindo. A Argentina em 78 aos seus comandos jogou bem. E conquistou a Copa do Mundo. Não jogou lindo. No México em 86 com Carlos Bilardo jogou bem. E venceu a Copa do Mundo. Não jogou lindo. Este apelo ao “lindo” é feito para frivolizar ou baixar o preço para a única verdade absoluta que o futebol tem: jogar bem. A nova Argentina de Menotti, dirigida por Lionel Scaloni, seguirá o lema de vencer jogando bem a qualquer custo, sendo sempre superior ao adversário.

– Para atingir meu objetivo, empregarei a ideia de não continuar colocando o sucesso esportivo à frente do trabalho e o tempo necessário para alcançá-lo. Vou dar os últimos anos da minha vida para a equipe nacional. Perdi o desejo de conviver com a AFA desde 82 até que esta proposta veio a mim. Toda bola que um jogador de futebol chuta com a camisa argentina desperta uma manifestação como um evento cultural em bairros, escolas, esquinas… Isso só pode ser feito pela nossa seleção. Quero recuperar essa identidade – afirmou.


O futebol argentino deve a Menotti a criação de uma “nova ordem” que começou em 1974 e terminou após o último jogo da Copa do Mundo de 2014 no Maracanã, quando conquistaram o grande mérito do vice-campeonato mundial contra a Alemanha depois de perder por 1 a 0 na prorrogação com a condução irrepreensível de Alejandro Sabella. Sob os princípios organizacionais de Menotti, que foram seguidos pelos treinadores seguintes, a Argentina conquistou sua posição de prioridade no coração da AFA e venceu duas Copas (1978 e 1986), dois sub-campeonatos mundiais (1990 e 2014), duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas e Pequim (2004 e 2008) e os campeonatos Sub 20 de 1979, 1995, 1997, 2001, 2005 e 2007, os cinco últimos em conformidade com o único projeto que a AFA tornou viável, o de José Pekerman.


– Hoje em dia vendemos mal o nosso produto: parece que um jogador camaronês vale mais que um jogador argentino. A cada três meses vendemos figuras como Lautaro Martinez e por menos de US $ 20 milhões. Hoje em dia é paradoxal que a Argentina tenha uma sementeira fértil de jogadores, mas não consiga transformá-la em sucessos com a seleção nacional. Nós vendemos o mais rápido possível a um preço baixo e isso é obviamente uma consequência da crise econômica do país. Também tentaremos incorporar mais atletas que jogam no país, isso era o que fazíamos antigamente – ressaltou Menotti que acredita que os futebolistas argentinos enfrentam um problema para manter a identidade técnica do país já que saem muito cedo e adquirem o estilo de jogo europeu.


O ex treinador tem o conhecimento, experiência e treinamento para reconhecer em que contexto está se envolvendo: o dever de ganhar que se ouve na Argentina com toda teatralidade que a cultura dramática do país impõe. Uma conjuntura onde a relação com o consumo é proporcional à porta giratória de treinadores e jogadores que vêm e vão e onde o tempo não é um prêmio, mas uma restrição para construir um projeto. Há poucos diretores técnicos revolucionários, aqueles que criam um sistema. Menotti não parece ser um deles, mas se tornou uma referência indiscutível de um futebol lírico, que busca que a eficiência não negue a beleza. A exploração do jogo relacional e associativo, da bola como meio de comunicação, do futebol como espaço, tempo e distração, da importância da figura do treinador para proteger o crescimento dos jovens, do respeito a todas as formas de sentir e pensar no futebol, são premissas que “El Flaco” tem dentro de seu catálogo.


Menotti inventou a seleção argentina. Pode parecer um exagero e até mesmo um desprezo injusto com sete décadas de história do futebol hermano. Mas não é. Este homem que completou oitenta anos no ano passado foi quem criou as condições para que a seleção tivesse um quadro estável, com um plano a longo prazo. Seus méritos, neste sentido, foram vários. A estrutura e o design da obra eram originais e inteligentes. Além de um plano, levantou uma ideia. Defendeu um retorno às raízes da melhor tradição do futebol argentino. A obrigação de estar em sintonia com a demanda física da elite, para acelerar um jogo historicamente cansativo, transformou a seleção em um equipamento elétrico frontal, vertiginoso. Com um discurso articulado, uma retórica hipnótica e uma personalidade forte, se tornou o grande personagem daqueles anos e a referência de uma ideologia futebolística.



 



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