Existem ‘mentiras’ convenientes, Carille



Fabio Carille é o melhor treinador do Brasil neste momento na minha opinião. Suas conquistas em tão pouco tempo de carreira são uma raridade mundial e não só por aqui. Conseguiu levar o título brasileiro com um elenco enxuto e com poucos jogadores acima da média. Consegue extrair de algumas peças mais do que se imagina que elas possam entregar. Tira coelhos da cartola em jogos grandes e tem um aproveitamento incrível em clássicos.

Até domingo ele tinha ainda uma enorme vantagem sobre seus principais colegas de profissão: um comportamento transparente típico dos iniciantes, uma certa dificuldade em reconhecer a grandeza de tudo o que está produzindo, algo que torna essas figuras ainda mais interessantes. Gabriel Jesus também é assim, para exemplificar.

Domingo, isso mudou um pouco. Carille subiu o tom e acusou a “grande maioria da imprensa” de ser mentirosa. Isso por conta da informação que surgiu no meio da semana passada de que o Al Hilal da Árábia Saudita teria intenção de fazer uma proposta milionária para o treinador corintiano. Informação confirmada pelo seu próprio pai, um senhor simpático como o filho.

A acusação enfia dentro de um mesmo saco toda uma classe profissional. Há diversas formas de se fazer jornalismo esportivo. Mas o ponto central não é esse. O ponto é que “mentiras” podem ser interessantes, inclusive para treinadores, jogadores e, principalmente, seus empresários.

Quando Carille deu entrevista na quinta-feira passada após a vitória do Corinthians na Libertadores contra o Deportivo Lara, ele soltou a seguinte frase:

-Eu disse que não sairia por um caminhão de dinheiro, mas podem vir dois, né?

Pode não ter sido a intenção, mas ali continha um recado para a diretoria corintiana de que ele poderia sair, mas que poderia ficar dependendo do que fosse possível negociar. Todo homem tem seu preço.

Ninguém discorda de que o nome do treinador estava sendo debatido no mundo árabe. Então, a quem interessava que esta notícia ganhasse tamanho aqui? Só à imprensa? Ou também (e principalmente) para Carille e seu empresário?

O treinador corintiano, transparente como são os iniciantes, disse que não fazia ideia de que chegaria tão longe na carreira. Modesto, disse que entendia que como jogador ele tinha limitações que o impediriam de brilhar e que como treinador esperava um pouco mais, mas nem tanto.

Agora, ele parece ter percebido um pouco melhor tudo o que ele tem feito e parece ter caído a ficha de que ele pode, sim, traçar outros voos na carreira. Sondagens virão, propostas também. Informações pipocarão de todo lado envolvendo seu nome. Algumas serão imprecisas, mas mentiras não serão a maioria.

Domingo, ele perdeu um pouco de sua inocência de iniciante. O próximo passo nesta caminhada será entender que existem “mentiras” convenientes, inclusive para ele.



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