A “injustiça” com Buffon



O desabafo de Buffon após a eliminação da Juventus para o Real Madrid nas quartas-de-final da Liga dos Campeões, quarta-feira, foi de emocionar até os mais duros.

Ele disse: – Foi um décimo de pênalti. Eu sei que o árbitro viu isso, certamente foi um lance duvidoso. E um lance duvidoso aos 48 minutos quando nós tivemos um pênalti claro não marcado no jogo de ida, você não pode conceder (o pênalti) a esse ponto. Você claramente não tem um coração no peito, mas uma lata de lixo. Acima de tudo, se você não tem caráter para estar num jogo como esse, num estádio como esse, você pode se sentar nas arquibancadas com sua esposa e seus filhos tomando refrigerante e comendo batatas. Você não pode arruinar os sonhos de um time.

Visto depois de vários replays, em câmera lenta, por diversos ângulos diferentes, é mais fácil decretar que houve realmente um pênalti de Benatia em Vasquez nos momentos finais da partida. O gol de Cristiano Ronaldo na cobrança eliminou a Juve do torneio depois de ela ter feito algo que parecia impossível: três gols no time mais poderoso do mundo em pleno Santiago Bernabéu.

Mas esqueça por um momento a frieza da Lei e entre na quentura do coração de Buffon. Ele tem a sua dose de razão (ou seria muita emoção com razão?). Foi provavelmente o seu último jogo de Liga dos Campeões e a chance de avançar lhe foi tirada com um pênalti marcado no último lance de jogo, enterrando tudo o que de heroico havia sido feito nos outros mais de 90 minutos. Não um pênalti clamoroso, mas um pênalti muito difícil de se ter 100% de certeza, sobretudo ao vivo, sem auxílio de câmeras.

É isso o que Buffon quis explicar ao dizer que foi “um décimo de pênalti”. Sim, a marcação foi correta na frieza da Lei, mas foi injusta diante de todo o contexto.

Se a marcação não fosse apontada, o jogo iria para a prorrogação e o Real Madrid teria mais 30 minutos para fazer um gol em casa e avançar. E este é outro ponto: não estava em jogo a chance derradeira de a partida ter um destino.

Quem conseguir entrar no coração de Buffon poderá sentir que seu choro não é apenas pela marcação de um lance, mas por tudo aquilo que resulta disso. Quando um árbitro apita um pênalti desses, ele está tomando para si o direito de decidir a partida. É isso o que Buffon tentou dizer.

Não, aqui não há um defensor da não marcação de um pênalti que aconteceu. Apenas há o olhar para o ser humano que existe vestindo um uniforme de goleiro.

Uma das magias do esporte, e mais precisamente do futebol, é poder enxergar no corpo de um atleta a pessoa que existe lá dentro. Deles é cobrada perfeição, rendimento altíssimo, frieza, força, incapacidade de falhar. Quando alguém tira a camisa do seu time e revela uma emoção altamente humana, é possível esquecer que houve o pênalti para olhar apenas para o que seria uma “injustiça”.

Que bom que a marcação correta foi apitada no lance do gol. Que triste ter impedido uma reviravolta épica no futebol. Que bom que existem caras como o Buffon.



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