O juiz errou. E os outros?



Foram oito minutos angustiantes vividos no Allianz Parque domingo à tarde. Mais de 40 mil pessoas além, de 22 jogadores em campo e mais uma dezena fora dele contra um único sujeito, Marcelo Aparecido de Souza. Desesperado, o árbitro correu de lado a lado do campo, lançou olhares implorando por alguma boia de salvação que viesse de fora até que voltou atrás na marcação de um pênalti para o Palmeiras.

Mas já era tarde. O estrago estava feito, a final marcada para sempre, o árbitro provavelmente condenado a uma geladeira, jogadores e torcedores palmeirenses revoltados, corintianos aliviados…

Desde que o jogo acabou, o vilão da história já está eleito e foi justamente o mais indefeso dos personagens envolvidos no episódio. Sozinho, sem ajuda externa legal, Marcelo Aparecido de Souza teve de se virar e apelar para sei lá o que (ajuda externa possivelmente?) para corrigir uma marcação errada.

O presidente do Palmeiras atacou a Federação Paulista de Futebol e o campeonato, chamando-o de Paulistinha. Evidentemente teria outro nome se o Verdão tivesse levantado a taça. Alguns torcedores no estádio descontaram a raiva agredindo jornalistas que estavam lá trabalhando.

Mesmo os vencedores preferiram ironizar ou xingar os derrotados em vez de curtirem a vitória. Jogadores do Corinthians na festa do título cantaram músicas contra o palmeirense Dudu. O Twitter oficial do clube também preferiu festejar falando mais do rival do que do próprio time.

Voltemos ao pênalti. Ralf toca na bola, depois em Dudu. O atacante palmeirense se joga tentando ludibriar o rival. Funciona, até que algo acontece e o árbitro volta atrás.

Ao juiz é proibido o auxílio eletrônico ao menos por enquanto e quanto a isso não há acordo. Já em campo, jogadores podem passar o tempo todo simulando faltas e agressões sem maiores consequências. Podem ainda rodear e ameaçar o árbitro em todas as marcações. Isso já faz parte da nossa cultura futebolística.

Em entrevista ontem na TV, Marcelo Aparecido de Souza disse que demorou para voltar atrás porque não conseguia ouvir o que seus auxiliares falavam e também não conseguia nem sequer se reunir com o time da arbitragem para tomar a decisão porque atletas das duas equipes impediam. E ninguém reclamou da postura selvagem dos jogadores.

Não é o caso de absolver um árbitro que virou personagem central de uma partida de futebol quando o que se mais espera é que ele seja o mais discreto possível. Mas todo o entorno contribuiu e vem contribuindo para o que vem acontecendo no futebol brasileiro: atletas que não têm nenhuma noção de hierarquia e educação dentro de campo, cartolas que preferem atacar um alvo qualquer a trabalhar pelo avanço em pontos importantes, jogadores que mesmo na vitória precisam provocar o rival, torcida que encontra na imprensa o culpado por tudo o que ocorre.

Está muito claro. Não adianta culpar uma única pessoa (no caso o árbitro), nem ter a “certeza” de que há um complô para ajudar um único clube. É mais racional dar a arbitragem instrumentos para errar menos e exigir que jogadores de futebol sejam honestos. O caminho mais fácil, e menos eficiente, é o eterno grito de “juiz ladrão!”



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