Paz na música, guerra no futebol



Fiz uma brincadeira esta semana no Twitter sem nenhuma relação com o futebol. Perguntei aos meus seguidores qual a banda de rock que muita gente gostava, mas eles não. Recebi uma enxurrada de respostas, uma mais legal do que a outra. Teve gente que decretou odiar Rolling Stones e Beatles, por exemplo.

Outros deram várias dicas de bandas que eu desconhecia e, quando mostrava interesse, o seguidor se esforçava para ajudar, mandando vídeos do YouTube, dando sugestões de discos, etc, etc…

A princípio, evitei falar das bandas que EU não gostava. Um pouco porque queria saber a opinião dos outros e muito pelo receio de ser trucidado no mundo virtual. Já chega ser massacrado por causa do futebol, pensei.

No fim das contas, respirei fundo, digitei e tuitei duas bandas que muita gente adora, mas que eu simplesmente não gosto, que não me dizem nada e que quando toca no rádio eu muitas vezes chego a trocar de estação. No fim do tuíte ainda provoquei: “Me agridam.” Esperei a reação.

Veio um elogio… Depois outro. Depois uma chuva de respostas legais, umas muito-bem-humoradas, outras mais sérias. Alguns contaram detalhes das bandas que fizeram parte da adolescência deles, outro contando qual foi o primeiro disco que ele ganhou e que guarda até hoje. Outros lembraram de outras bandas que adoram e um disse que toca músicas do Kings of Leon para o filho de sete meses dormir.

Até agora, cinco dias depois, tem gente respondendo à minha pergunta ou comentando minhas preferências. Concordando, discordando, brincando. Nenhuma ofensa. Mas, no meio do caminho aconteceram jogos de futebol. O Corinthians eliminou o São Paulo, o Palmeiras eliminou o Santos, o Botafogo eliminou o Flamengo, a Seleção ganhou da Alemanha, a Argentina foi humilhada pela Espanha. E aí, a rede social voltou a ser um depósito das ofensas mais tristes, do ódio mais incompreensível, do nível mais baixo que se pode encontrar. No meio de poucas análises interessantes sobre os jogos, muito preconceito, homofobia e agressões.

Futebol e música são parecidos. São paixões, são manifestações culturais e artísticas (sobretudo no Brasil), são experiências sociais das mais interessantes. As pessoas se conectam por este esporte e também pelo som. Por fim os dois estão intimamente ligados.

A música nos traz as experiências deliciosas, prazerosas, uma energia que não se sabe de onde vem (para quem gosta). O futebol traz tudo isso também, mas carrega junto uma dose de raiva, de guerra que não deveria fazer nenhum sentido.

Claro que a música não é uma competição, não há disputa e isso explica muita coisa. Mas é incompreensível que uma pessoa se relacione com os outros de uma forma quando fala de música e de outra, muito mais agressiva, quando o assunto é futebol.

Esta não é uma defesa do fim da rivalidade, da brincadeira, da tiração de sarro ou do debate. Sem isso o futebol perde parte de sua magia, é indiscutível. Mas é possível amar o futebol sem odiar quem torce para um time diferente do seu. Assim como eu gosto de muita gente que é fã do Metallica e do Red Hot Chilli Peppers.



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