A contusão do Márcio



Márcio é um craque. Dribla as mesas apertadinhas do Bar do Mário, onde trabalha como garçom, com elegância e velocidade. Com um detalhe: levando um monte de pratos e travessas na mão. Acha espaços que ninguém enxerga na mesa quando chega com a comida. E ainda traz a farofa da casa como quem dá uma assistência e deixa o companheiro na cara do gol.

Quem não conhece sua história não pode saber o que ele passou. Quem conhece não compreende como ele anda tão ligeiro e porque está sempre sorrindo.

Há um ano e um mês ele ia para o trabalho de moto quando o motorista da frente freou bruscamente. Ele bateu, caiu e acabou no hospital da USP (Universidade de São Paulo). Nenhuma fratura, disseram. Só a pancada. Foi pra casa e dias depois não conseguia pôr o pé esquerdo no chão de dor e de inchaço. Foi para um hospital de Cotia (cidade da Grande São Paulo). Nada. Depois de uns dias de molho voltou a trabalhar se arrastando. Não aguentou de dor no fim da semana. Teve que ir a um terceiro médico que falou: – Tem fratura. Voltou ao hospital da USP, fez outros exames e descobriu que havia quebrado perna e pé.

Ficou dois meses afastado do trabalho. Deveria ter feito sessões de fisioterapia, mas não conseguiu. Voltou ao batente. Hoje, um ano e um mês depois de tudo ele segue driblando as mesas com elegância. Olha para os clientes como um atacante olha para o gol. Conhece a maioria dos fregueses pelo nome e já sabe o que muitos vão pedir.

– O de sempre?

E lá vem um picadinho fumegando e transbordando do prato.

A vida do craque Márcio não mudou muito desde o acidente. Só às vezes ele ainda sente dor no pé, que incha, mas aguenta firme. Voltou a andar de moto como se nada tivesse acontecido. O maior prejuízo foi nas peladas de Cotia, onde mora. Teve de abandonar.

– Não tenho mais confiança para jogar bola, conta.

Mas conta com o sorriso de sempre no rosto, como se contasse que fez um golaço. E emenda:
– Agora vou tentar um tratamento com agulhas. Como é o nome? Acupuntura.

No acidente, Márcio quebrou a tíbia e o quinto metatarso do pé esquerdo. Esta segunda fratura é a mesma que Neymar teve. Se a discussão no caso do craque do PSG foi o “opera ou não opera”, no caso do Márcio não teve nada disso. Nem fratura conseguiram ver que ele tinha no começo da conversa.

Sem cirurgia (ou, para usar o termo da moda, fazendo um “tratamento conservador”) Márcio se recuperou do jeito que deu e voltou a desfilar seu talento no Bar do Mario.

Neymar pode ficar um pouco mais tranquilo. Até porque teve o médico da Seleção, o médico francês, jato particular, helicóptero, hospital muito bem equipado e até o apoio da Bruna Marquezine o tempo todo.

Esta é a boa notícia para o craque e para a torcida brasileira.

Para o Márcio, a boa notícia foi o fato de trabalhar com um patrão que lhe deu toda a assistência necessária desde o dia do acidente. E o fato de ele ser daquelas pessoas com a estranha mania de ter fé na vida.



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