Quando a arte valeu mais do que a vitória



Em uma semana que a esperança na civilização foi duramente atacada, a notícia mais legal do mundo do esporte remete a algo que aconteceu em 1992.

Na véspera da final do Mundial Interclubes entre São Paulo x Barcelona o árbitro daquela partida assistiu a uma conversa entre os treinadores dos dois times: Telê Santana pelo Tricolor, Johan Cruijff pelo Barça. Juan Carlos Losteau assistiu a mais do que um bate-papo dois dias antes do jogo entre as equipes. Ele assistiu a um pacto pelo bom futebol.

-Estavam convencidos de que perder jogando bem não era fracassar e que uma partida legal, se se respeitam os princípios, não há vencedores nem vencidos, contou Losteau.

Telê e Cruijff entraram em um acordo contra a cera, contra o anti-jogo e outras chagas que já incomodavam o futebol naquele tempo. Como se sabe, a final foi uma grande partida, limpa, em que o São Paulo venceu o chamado dream team do Barcelona por 2 a 1 de virada.

Esta história vem a público em um momento em que a vitória a qualquer custo vem sendo uma das coisas mais cultuadas no futebol. No Brasil, não existe um único jogo em que algum jogador não tente ludribiar a arbitragem cavando faltas, por exemplo. Aqui e fora daqui há uma certa fascinação por times que criam táticas de jogo voltadas a impedir o jogo do rival.

No fim de semana, um clássico inglês colocou frente a frente duas escolas de futebol, antagônicas. De um lado Guardiola, defensor do futebol como algo bonito de ser ver. Do outro Mourinho, sequestrador de espaços dentro do campo. Ao final, o City venceu com autoridade e Mourinho reclamou da não-marcação de um suposto pênalti. Jogadores dos dois times teriam se desentendido após o jogo, nos vestiários.

Na primeira partida da final da Copa Sul-Americana torcedores do Flamengo sofreram muito com a torcida do Independiente. Houve até agressões racistas. No jogo de volta, rubro-negros deram o troco, soltando rojões em frente ao hotel do time rival e brigando com torcedores.

Fora do Maracanã, o que se viu foi uma verdadeira praça de guerra, com saques, invasões e agressões pra todo lado. Tudo, menos futebol.

A baixaria também tomou conta das redes sociais, esta espécie de criadouro de seres repugnantes. Foi lá que rubro-negros justificaram a agressão aos argentinos como resposta ao que havia acontecido na semana anterior, por exemplo.

Em 1992 não havia internet, muito menos redes sociais. Se o mundo era melhor naquela época? Em centenas de aspectos, não. Mas havia espaço para um acordo de cavalheiros entre dois treinadores em nome do bom futebol. Em nome da arte.

Se uma história dessa acontecesse hoje em dia, é bem provável que os personagens fossem detonados em redes sociais, ameaçados na rua, cobrados pelos seus superiores porque afinal a vitória a qualquer custo é o que interessa.

Pensando bem, que bom que Telê Santana e Cruijjf fizeram isso o que fizeram lá em 1992. E não deram chances para cretinos gritarem.



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