O Imortal Grêmio ressuscitou o jogo bonito no Brasil



O Grêmio fez sua história vencendo batalhas impossíveis, sempre com luta, garra, etc, etc… O campeão da América de 1983 foi simbolizado pelo craque Renato Portaluppi, mas principalmente pelo uruguaio Hugo De León, que saía de campo sangrando após cada partida. O de 1995 tinha como símbolo Felipão, que sempre tratou o futebol como um jogo de vida ou morte.

Mas coube ao Tricolor Gaúcho de 2017 um outro papel: o de produzir o futebol mais legal de se assistir no Brasil.

O time que na madrugada de quarta para quinta-feira tingiu de azul o continente é, acima de tudo, um time que joga um futebol refinado. Um futebol que ficou por um fio da extinção no Brasil recente.

O debate futebolístico brasileiro em 2017 foi sobre a posse. Sobre como os times brasileiros nutrem aversão à bola e preferem entregá-la ao rival a construir vitórias com ela nos pés. Em determinado momento parece que ficamos reféns dos sistemas defensivos extremamente sólidos e na velocidade na transição defesa-ataque. Como se qualquer outro modelo de jogo estivesse fadado ao fracasso por ser pouco eficiente, embora plástico.

Quem tentou ter a bola nos pés nos últimos anos fracassou: São Paulo, Flamengo, Palmeiras de Eduardo Baptista e Galo de Roger Machado (nos dois últimos, a falta de “tempo de trabalho” foi fundamental). Isso para ficar em alguns exemplos. O sucesso do futebol brasileiro veio de times bons defensivamente, como o Corinthians de Tite em 2015 e o de Carille em 2017. O Cruzeiro bicampeão 2013/14 e o Palmeiras campeão de 2016 tinham vocação ofensiva, mas nem tanto apreço a ter a redonda.

E assim miramos com um olhar de encantamento times de fora do Brasil fazer da posse de bola um compromisso, como se isso para nós fosse parte de um mundo de fantasia.

O Grêmio de Renato Portaluppi mostrou que não. O título da Libertadores conquistado nos últimos minutos da última quarta-feira foi a vitória de um time que troca passes, tem a bola, impõe seu jogo aos rivais sem necessariamente ficar frágil defensivamente (pecado de quase todos os outros times que tentaram ter a bola no Brasil recentemente).

De desprezado, muitas vezes execrado e, consequentemente quase extinto, o futebol de posse de bola no Brasil ganha vida novamente com a conquista do Grêmio. Aliás, a decisão contra o Lanús pode ser encarada como a vitória da posse de bola, porque o rival do Tricolor também gosta dela, como ficou claro na finalíssima.

Um campeão como este Grêmio também desmistifica o tal espírito de Libertadores, este ente abstrato que povoa mentes em toda a América. A de que para se ganhar esta competição continental é necessário guerrear, fazer mais do que jogar bola. O time de Renato apenas jogou e venceu de forma incontestável.

O Tricolor Gaúcho reviveu um jogo que fez o Brasil ser conhecido como praticante do futebol-arte. Se o futebol agradável de ser ver agonizava por aqui, o Tricolor nos mostrou que não. E que talvez este tipo de jogo seja imortal. Como o próprio Grêmio.



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