O drone e o jornalismo *



Drone foi o assunto da semana no universo esportivo brasileiro. Reportagem de Gabriela Moreira para os canais ESPN mostrou que o Grêmio contratou os serviços de um espião para descobrir segredos táticos de seus adversários. O assunto caiu como uma bomba no clube. Muita gente tentou desmentir a história até que Renato Gaúcho veio a público e admitiu que, sim, paga ao sujeito para que ele traga informações dos rivais.

Além de uma ótima história, o caso serviu para escancarar como está disseminado um entendimento absolutamente errado sobre o papel do jornalismo. E isso é preocupante, tanto para o jornalismo esportivo como (ou mais) o de outras editorias.

Antes de ser esportivo, o jornalismo esportivo é jornalismo. E deve rezar pela mesma cartilha de qualquer editoria no que diz respeito ao cuidado na apuração, imparcialidade, procura por temas relevantes.

Diferentemente do que hoje é pregado com enorme naturalidade, não, o jornalismo esportivo não deve ter um lado. No caso específico, o Grêmio não deveria ser poupado de uma reportagem negativa para ele porque havia uma final de Libertadores pela frente contra um rival argentino.

A notícia não tem hora melhor ou pior para ser publicada. Se foi à público a dois dias da final da Libertadores foi porque a apuração ficou suficientemente consistente naquele momento. Publicar antes seria descuido com a precisão jornalística. Guardar e publicar mais adiante seria descompromisso com a verdade. O compromisso com a precisão e a verdade são pilares desta profissão tão maltratada no Brasil.

Onde estão as provas? Foi com este argumento que a reportagem tentou ser desmontada por quem se sentiu atingido. As provas foram colhidas ao longo de cinco meses, tendo como penúltimo e mais relevante capítulo o flagra no espião quando ele se preparava para alçar seu drone no ar para espionar o Lanús. O último capítulo veio de Renato Gaúcho, admitindo o uso de um sujeito que é “pago para trazer informações do rival”. Exigir contratos assinados das partes como prova é como exigir que um político ladrão passe recibo dos desvios que faz. (E aqui não há nenhuma comparação entre roubo e espionagem. O primeiro é crime. O segundo suscita um debate sobre justiça e moralidade).

Jornalistas também já espionaram treinos secretos. Este foi outro argumento levantado contra a reportagem e aqui a questão é entender bem qual o papel de cada um. O jornalista descobre e conta fatos. Treinos secretos revelados por um jornal, TV ou site são vistos por todas as partes envolvidas, espiões e espionados inclusive. Quando alguém espiona e isso não é revelado, apenas ele está levando vantagem.

O jornalismo vive um momento delicado e desafiador. Vivemos na era das fakenews, em que qualquer um pode fingir ser jornalista, divulgando informações falsas ou mal-apuradas. Para o jornalismo esportivo ser engolido por este furacão devastador basta um estalo. Basta colocar a paixão à frente da verdade e preferir agradar este ou aquele.

Esporte é apaixonante, mas nem por isso é possível deixar de lado a frieza e isenção, condição básica para quem quer exercer e entender esta profissão.

* Os comentários costumam ser abertos em meu blog. Neste caso específico, serão deletados aqueles que trouxerem ofensas ou citações negativas a outras pessoas. A ideia é promover um debate de bom nível.



  • Jonatas Viana

    Ótima resposta cara. E agora te pergunto…sendo o Grêmio campeão, será que essa historinha vai continuar?! Ou , já que não tem como desmotivar mais o time, vão esquecer de vez e deixar para lá?! Fica a dúvida né. Bando de sem vergonhas, interesseiros e hipócritas!!

  • Ricardo Brum

    Bom dia, Eduardo.

    Prezo muito pelo jornalismo investigativo, acho de uma importância ímpar a figura do repórter para o jornalismo; acompanhei reportagens ótimas da Gabriela Moreira, sou fã do Lúcio de Castro. Inclusive essa matéria mesmo eu achei muito interessante, capaz de trazer um debate interessante e necessário quanto à ética no futebol.

    No entanto, senti falta de alguns fatores na tua argumentação, não sei se porque tu desconsidera ou se passou batido mesmo. Eu concordo que a Gabriela não tem motivo algum para segurar matéria para beneficiar ou não a equipe do Grêmio; aliás, se tem uma coisa que eu, como torcedor do Grêmio, nunca esperei pela ESPN neste ano foi consideração. Mas sobre isso falarei mais adiante. A Gabriela não teria motivo para segurar a matéria, mas teria motivo para soltar a matéria na segunda, dividida em duas partes, sendo a segunda parte publicada na véspera da final, tendo a mesma durado cinco meses? Foi realmente coincidência?

    O teu próprio post me faz acreditar que não. Em uma semana de final de Libertadores, com o clube e torcida mobilizados para o jogo – cujo a emissora não tem direito de transmissão, faça-se notar – INTERESSA a quem que o foco seja extra campo? Como falei anteriormente, a discussão que essa matéria poderia levantar é necessária para o futebol. Não foi considerado que publicar ela nesse momento (consideração que faço tendo em vista o tempo em que se desenvolveu a averiguação) poderia prejudicar o debate a respeito? Ou o importante era pautar a final, não importando a maneira?

    Caso a justificativa seja de que a matéria estava pronta, então onde estão os outros exemplos de espionagem, que ninguém nega que existam, mas tampouco aparecem na reportagem? Durante cinco meses se investigou, mas não puderam esperar mais do que dois dias para que o clube – vivendo os dias mais importantes da sua história recente e do seu futuro – se manifestasse? Lamento pelos posicionamentos infelizes do vice jurídico do Grêmio. Mas quem lamenta por declarações como “a matéria não visa tirar os méritos do Grêmio (…) o Grêmio não pensou que isso iria manchar a trajetória até aqui de Marcelo Grohe, Geromel, Luan”? Até o momento não vi qualquer tipo de mea culpa pela emissora ou pelos teus colegas que falaram isso. (caso não tenha ouvido, é possível notar declarações nesse tom inclusive na entrevista com o infeliz Nestor Hein)

    Por estes e outros questionamentos que tenho desde a publicação da reportagem, que cada vez mais me afasto da emissora ESPN. Um ano inteiro em que o Grêmio disputou três títulos de extrema relevância no âmbito nacional e continental, e no início do ano o Grêmio não era mencionado nem como “correndo por fora; durante as competições, na maioria das vezes só era mencionado nos longos programas de debate para a crítica ao planejamento e utilização do plantel nos três campeonatos. A emissora se limitou a enviar jornalista para cobrir plantel e fazer matérias só em decisão. E no momento em que o Grêmio tem protagonismo continental, produz uma matéria para atrair para si os holofotes? Me desculpe, mas cresci acompanhando uma emissora que era muito mais que isso, e não é o que noto agora.

    Todo o meu respeito à Gabriela Moreira, e desculpas pelos absurdos que ela deve estar recebendo em seus perfis. Não há o que justifique ataques machistas e ofensas pessoais.

    Abraço.

  • Tironi

    eu estou conseguindo ler o seu comentário anterior na plataforma do blog, mas ele não aparece na página para o público. Sigo tentando resolver junto à TI do LANCE!. Enquanto isso, vc poderia postar novamente? Obrigado.

  • Ricardo Brum

    Sigo aguardando a publicação do meu comentário…

  • Josiane Ozzie Maya Fred

    Excelente!!! Melhor que a propria coluna!!! É um corporativismo terrivel. Se é jornalista que faz é furo de reportagem se é o time é espionagem. MENTIRA!!! É tudo a mesma coisa!!!! E a reportagem foi só pra emissora atrair o foco ficou fora da festa.

  • Ricardo Brum

    Bom dia, Eduardo.

    Prezo muito pelo jornalismo investigativo, acho de uma importância ímpar a figura do repórter para o jornalismo; acompanhei reportagens ótimas da Gabriela Moreira, sou fã do Lúcio de Castro. Inclusive essa matéria mesmo eu achei muito interessante, capaz de trazer um debate interessante e necessário quanto à ética no futebol..

    No entanto, senti falta de alguns fatores na tua argumentação, não sei se porque tu desconsidera ou se passou batido mesmo. Eu concordo que a Gabriela não tem motivo algum para segurar matéria para beneficiar ou não a equipe do Grêmio; aliás, se tem uma coisa que eu, como torcedor do Grêmio, nunca esperei pela ESPN neste ano foi consideração. Mas sobre isso falarei mais adiante. A Gabriela não teria motivo para segurar a matéria, mas teria motivo para soltar a matéria na segunda, dividida em duas partes, sendo a segunda parte publicada na véspera da final, tendo a mesma durado cinco meses? Foi realmente coincidência?

    O teu próprio post me faz acreditar que não. Em uma semana de final de Libertadores, com o clube e torcida mobilizados para o jogo – cujo a emissora não tem direito de transmissão, faça-se notar – INTERESSA a quem que o foco seja extra campo? Como falei anteriormente, a discussão que essa matéria poderia levantar é necessária para o futebol. Não foi considerado que publicar ela nesse momento (consideração que faço tendo em vista o tempo em que se desenvolveu a averiguação) poderia prejudicar o debate a respeito? Ou o importante era pautar a final, não importando a maneira?
    Caso a justificativa seja de que a matéria estava pronta, então onde estão os outros exemplos de espionagem, que ninguém nega que existam, mas tampouco aparecem na reportagem? Durante cinco meses se investigou, mas não puderam esperar mais do que dois dias para que o clube – vivendo os dias mais importantes da sua história recente e do seu futuro – se manifestasse? Lamento pelos posicionamentos infelizes do vice jurídico do Grêmio. Mas quem lamenta por declarações como “a matéria não visa tirar os méritos do Grêmio (…) o Grêmio não pensou que isso iria manchar a trajetória até aqui de Marcelo Grohe, Geromel, Luan”? Até o momento não vi qualquer tipo de mea culpa pela emissora ou pelos teus colegas que falaram isso. (caso não tenha ouvido, é possível notar declarações nesse tom inclusive na entrevista com o infeliz Nestor Hein)

    Por estes e outros questionamentos que tenho desde a publicação da reportagem, que cada vez mais me afasto da emissora ESPN. Um ano inteiro em que o Grêmio disputou três títulos de extrema relevância no âmbito nacional e continental, e no início do ano o Grêmio não era mencionado nem como “correndo por fora; durante as competições, na maioria das vezes só era mencionado nos longos programas de debate para a crítica ao planejamento e utilização do plantel nos três campeonatos. A emissora se limitou a enviar jornalista para cobrir plantel e fazer matérias só em decisão. E no momento em que o Grêmio tem protagonismo continental, produz uma matéria para atrair para si os holofotes? Me desculpe, mas cresci acompanhando uma emissora que era muito mais que isso, e não é o que noto agora.

    Todo o meu respeito à Gabriela Moreira, e desculpas pelos absurdos que ela deve estar recebendo em seus perfis. Não há o que justifique ataques machistas e ofensas pessoais.

    Abraço.

  • Italo Gustavo

    Este comentário foi melhor que a coluna. A reportagem da garota foi bacana e a ESPN não é tão isenta como bate no peito que é. Até porque estão julgando o Grêmio como se a ÉTICA da espionagem sempre foi a conduta que a ESPN tem. E até no breve comentário foi lembrado casos fortuitos da emissora. Independente de certo ou errado mas são/foram oportunistas e sentam pra falar dos outros…

    PS:. Nem gremista sou…

  • Thiago Silva

    Curioso é o jornalista em questão não lembrar que a jornalista a qual tenta defender por mero corporativismo disse muito bem que estava a CINCO MESES acompanhando o tal individuo, entendo a desculpa de captar isso na sexta, não conseguir falar sábado e domingo e publicar na segunda, mas oras, ela teve CINCO MESES para publicar, entrar em contato e talz, e ela deixa pra fazer isso a dois dias do jogo mais importante do clube? Segundo fato: Renato fez pouco caso, o Treinador da Lanus também admitiu usar, já aconteceu isso com o Palmeiras, mas só vocês da ESPN, e sim, falo isso por apesar de estar usando coluna no lance, volta e meia o colunista vai falar abobrinha na divisão esportiva da Disney, fizeram o escarcéu de um assunto de relevância zero, apenas com o intuito de provocar sanções e por causa da mesma punir o Grêmio, tal como foi o episódio do Goleiro Aranha, visto que o Grêmio foi o ÚNICO time punido por racismo com uma eliminação, diferentemente de Botafogo, Flamengo e outros clubes aí que já reproduziram atitudes racistas por diversas vezes. Terceiro: Se o treino é fechado e não quer captação de câmeras ou presença de reportagem, o correto é informar isso e sair, mas na copa de 2010, nesse vídeo que tá rolando, vocês claramente desobedeceram em prol do “jornalismo”? Não, isso é espionagem da mesma forma, pois vocês não respeitaram ao desejo do clube de se privar, e garanto que se Grêmio pagou alguém para ter informações, é por que vocês NÃO TIVERAM COMPETÊNCIA em colhê-las(afinal, não vi repórter brasileiro cobrindo o adversário, e salve-se Eugênio Leal da Fox e as participações do Ariel Palacios no Sportv(não é da sportv em si, mas responde por ela aqui), não vejo NINGUÉM da imprensa brasileira abordando o futebol sul-americano fora do Brasil, e repare, ambos não são da ESPN), e no Brasil, a cobertura mais aprofundada só ocorre aos 4 do RJ e de SP, afinal, por exemplo tirando o torcedor Baiano, que outro torcedor conhece como o Bahia joga(Afinal, o pessoal só acaba sabendo no dia do jogo, ou pelos jogos anteriores)? Vocês cobrem algum treino do Bahia? No máximo fazem um pós-jogo quando ele enfrenta alguém do RJ/SP, inclusive, como quer falar de jornalismo e defender uma emissora que em sua programação coloca 3 programas pouco informa e muito do tempo é dedicado pra falar besteiras(Bate-bola), como Nicola falar trocentos boatos inverídicos, ou as palhaçadas do Rômulo Mendonça(Que é narrador) ou Celso Unzelte, ou falar de tarefas caseiras num programa que deveria falar da relação mulher com o esporte(espnW).

    Só digo que essa emenda pra defender a Gabriela Moreira, que diga-se de passagem, a maioria dos boleiros ODEIA ser interpelado por ela dado sua arrogância(Vale lembrar o episódio com o Luxemburgo, ou mesmo o mais recente com o Marco Aurélio Cunha, da qual a todo momento ela interrompia para seus interesses e o que acha como certo sobreponha a resposta do entrevistado), grosseria(tipo humilhar o torcedor palmeirense que provoca o são paulo por puros esquerdismos) e perguntas enviesadas(especialmente quando há alguma mulher envolvida), foi pior que o soneto. A Torcida do Grêmio está pistola com a ESPN e com completa razão, veja se com a Fox ou a Sportv a reação é a mesma (Salvo o André Rizek que também foi outro corporativista pra KCT) .

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