A lição de Carille e o que vem por aí



No começo do ano escrevi aqui neste mesmo espaço que uma corrida silenciosa estava em curso no futebol paulista. Era o duelo entre três treinadores iniciantes que tinham ganhado oportunidades de trabalhar em clubes gigantes. O sucesso de um, obrigatoriamente significaria pressão nos rivais.

Quarta-feira, Fabio Carille levantou sua segunda taça em 2017, ano em que ele dirigiu pela primeira vez em uma temporada inteira uma equipe principal. Seus rivais na corrida iniciada no começo do ano ficaram pelo caminho. Rogério Ceni foi demitido do São Paulo e, ironicamente, na mesma quarta-feira foi apresentado como treinador do Fortaleza. Eduardo Baptista caiu no Palmeiras e agora tenta evitar que quem caia (para a segunda divisão) seja a Ponte Preta.

A trajetória de Carille em 2017, porém, ultrapassou os limites do Estado de São Paulo. Ele se tornou não só um motivo de pressão para os rivais locais do Corinthians como também para “professores” do país inteiro.

Com um elenco não mais do que esforçado, levou o Timão ao seu sétimo título brasileiro. Na longa temporada do futebol nacional, nunca se ouviu o treinador corintiano reclamar da falta de jogadores. Pelo contrário, tudo o que ele falou é que não poderia perder ninguém (e não perdeu). E quando jogaram uma casca de banana na sua frente logo na largada, ele recusou. Foi a tentativa desastrada de contratação de Drogba para “reforçar” o elenco. “Não, obrigado”, disse o ainda tímido sujeito de Sertãozinho.

O sucesso de Carille joga luz no que todos os outros “professores” do futebol brasileiro fizeram. Desde Vanderlei Luxemburgo, que lamentavelmente agoniza como treinador (gigante que foi nos seus bons momentos), passando por Cuca, de passagem desastrosa pelo Palmeiras este ano, Levir Culpi, Abel Braga… as exceções são Renato Gaúcho, que pode levar o Grêmio ao título da Libertadores, e Jair Ventura, que tira leite de pedra no Botafogo.

O treinador do Corinthians não é um gênio do futebol, mas construiu um time mais forte e mais organizado do que praticamente todos os outros da Série A. Contando com muito menos recursos do que Palmeiras e Flamengo, para ficar nos exemplos mais óbvios.

Porém, em 2018 novos desafios estarão colocados à mesa. Se este ano o rótulo de “quarta força” serviu ao mesmo tempo de estímulo para o elenco e escudo para cobranças maiores, ano que vem o Corinthians e Carille estarão em outro patamar. Será o campeão paulista e brasileiro sendo mais uma vez colocado à prova.

Carille não será mais o novato que só virou treinador porque a diretoria não conseguiu contratar ninguém. E o Timão não será mais a quarta força.

Será interessante notar como treinador e time vão se comportar nesta nova situação. Na madrugada após a conquistado título, jogadores falaram de como foram desafiados depois de serem menosprezados. Carille, ainda tímido, soltou um pouco as asas e já falou mais alto na coletiva.

A vida do treinador, que mudou profundamente em um ano, mudará de novo em 2018. Veremos como ele vai se acomodar na nova situação.



MaisRecentes

Futebol ofensivo: todos querem, poucos praticam



Continue Lendo

Segue a tempestade no São Paulo



Continue Lendo

Lições do Brasileirão



Continue Lendo