Ele torce para o meu time!



“Fulano saiu”. Foi o que vi quando peguei meu celular e abri no grupo sobre assuntos futebolísticos do qual participo com grandes amigos de adolescência. Nada a ver com as dezenas de grupos de futebol que têm relação com o trabalho. Este é lazer mesmo.

Mas o clima ali pesou. Um grande amigo saiu e eu não entendi nada. Comecei a rolar as mensagens para cima e aos poucos fui compreendendo. Um corintiano se desentendeu com um palmeirense e a coisa acabou em rompimento. “Saiu do grupo”. Essa espécie de “não quero mais papo”, “não tô nem aí para seus argumentos”, “eu sou superior a tudo isso”, “me dá o dedinho” dos tempos modernos.

A discussão era sobre qual time tinha mais jogadores que brilharam no exterior. O corintiano lembrou da passagem de Casagrande pelo Ascoli e de Sócrates pela Fiorentina. O palmeirense desdenhou com algo como: “Ascoli… hahaha… parei”. Então o corintiano mandou o seguinte áudio: “Estou esperando há 40 minutos um cara para uma reunião de trabalho. Aí pego o celular pra distrair e leio alguém falando mal do Casão e do Doutor! Ah, vá tomar…” Aí o palmeirense saiu do grupo.

Não estou falando de adolescentes. São homens formados, tiozinhos de sucesso profissional. No grupo tem empresários, diretores de grandes empresas, com esposas, filhos, contas para pagar. Sujeitos que têm mil outras coisas para se incomodar e mesmo outros tipos de lazer em mãos.

Conto toda essa história porque esta semana o futebol brasileiro foi abalado por uma revelação “bombástica”. Neymar é palmeirense. Sim. O maior craque surgido em nosso quintal ultimamente e que virou ídolo no Santos, Barcelona e agora do PSG é Verdão.

Há algum tempo já pipocava pela internet aqui e ali uma foto de um Neymar criança vestindo a imponente camisa verde. Nos últimos dias, surgiu a revelação: uma imagem dele com a camisa de treino da Seleção por cima e, por baixo, o manto do Verdão. Depois, ele mesmo postou em suas redes sociais foto do goleiro Marcos e a palavra “ídolo”.

O mundo virtual entrou em polvorosa. Neymar palmeirense virou quase uma vitória do clube, como um título, como um atestado de superioridade.

Na prática o que isso significa? Será que o craque do PSG vai jogar no Palmeiras um dia? Será que na hipotética final de mundial entre Palmeiras x PSG o craque vai jogar mal de propósito porque, afinal, não vai bater no seu time de coração? Evidentemente não.

Mas no mundo do futebol isso vale pouco. Um craque revelar seu time de infância e este time ser o seu significa uma grande conquista. Ridicularizar alguém que defendeu as cores do seu time é como ofender um parente próximo. Alguém falar mal do Sócrates para um corintiano é quase um sacrilégio. Dizer que Zico não era tudo isso é uma barbaridade. Mas dizer isso para um rubro-negro é uma ofensa além de qualquer limite.
O futebol tem o poder de transformar um sujeito que nunca trocou um cumprimento pessoalmente com você em seu amigo íntimo, aquele que você vai proteger a qualquer custo.

Depois de algumas horas, o amigo palmeirense voltou ao grupo de whatsapp. Até agora não citou o fato de Neymar torcer para o seu time. Tenho certeza de que está esperando o melhor momento para utilizar esta arma em alguma discussão.



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