O momento do campeonato em que o jogo pouco importa



Mais ou menos neste momento do ano passado surgiu um discurso na boca de jogadores, treinadores e parte da imprensa esportiva: esqueça jogar bem, agora é o momento de fazer pontos. Foi quando o Palmeiras mirava o título, mas o nível do seu jogo caía.

Era uma conversa estranha, como se jogar bem impedisse um time de vencer, quando na verdade é exatamente o contrário.

Esse papo apareceu novamente agora. O nível do futebol do Corinthians despencou e os números refletem exatamente isso. No segundo turno o time não é nem sombra do que foi no primeiro. O time tem apenas a 15a campanha do returno e conquistou oito pontos em 21 disputados. Segunda-feira, após o empate contra o Cruzeiro no Mineirão, o discurso de jogadores era o de fazer pontos de qualquer maneira para não deixar o Brasileirão escorrer pelos dedos.

Tem um certo sentido. Afinal, o Corinthians precisa de um desempenho apenas mediano daqui até o fim do campeonato para levantar a taça. Porém, quando se agarra ao resultado esquecendo o desempenho (velha dicotomia do nosso futebol) o risco que o futebol corre é o de se contentar apenas com a taça, sem pensar na qualidade do jogo em si.

Renato Gaúcho discursou na mesma linha após o seu Grêmio ganhar apertado do Fluminense jogando abaixo do esperado. O treinador falou dos vários desfalques e terminou cravando: “se não der pra jogar bonito vamos jogar feio e continuar conquistando pontos.” Se continuar jogando mal, possivelmente não terá fôlego para encostar no líder, assim como o Palmeiras parece que não terá. Vinha fazendo pontos, mas não vinha jogando bem. Contra o Santos perdeu em casa e viu o sonho de colar no líder ir embora.

O São Paulo vive situação oposta à do Corinthians. Em vez de vislumbrar o título, tenta não ser pego pelo rebaixamento. Fez um primeiro turno tenebroso, ao contrário do Timão, mas no returno tem pontuação razoável: 12 pontos em 21 disputados.

Domingo, com o Morumbi mais uma vez cheio, teve atuação bem ruim contra o Sport, mas venceu por 1 a 0. No fim do jogo, o goleiro Sidão evitou o empate dos pernambucanos com duas defesas milagrosas.

Ao final da partida, Petros deu o tom do sentimento são-paulino: “Não é um pecado jogar mal, importante era conseguir os três pontos.” De novo, a questão é pontuar, mesmo que o futebol em campo não seja dos melhores.

Se no caso do Corinthians a vantagem confortável na liderança da tabela e a concorrência com pouco apetite para encostar dão uma certa razão para o “ganhar mesmo com o nível do jogo despencando”, no caso do São Paulo o buraco é mais embaixo. Porque ali na parte de baixo da tabela qualquer ponto vale muita coisa. E cada ponto perdido jogando mal pode custar muito.

Considerando que o Brasileiro de 2017 vive a estranha situação de ter pelo menos dez times lutando contra o rebaixamento, viveremos mais dias de discursos estranhos. A cada ponto conquistado que poderá significar saltos preciosos na tabela, veremos treinadores, jogadores e jornalistas dizerem que o importante é conquistar pontos.

Quem não joga bem tem menos chances de vencer, quem não vence faz menos pontos. Parece que ninguém está pensando nisso.



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