Obrigado, Neto!



Eu ainda engatinhava na carreira quando fui escalado para ir a um treino do Corinthians. Naquele tempo não existia a blindagem das assessorias de imprensa dos clubes. A atividade parava e todos os jornalistas que estavam à beira do campo entravam e conversavam livremente com qualquer jogador.

Fui em direção ao Neto, craque do time na época. Fiz uma pergunta banal, tipo “qual a expectativa para o próximo jogo?” e ele respondeu: “Não te interessa.” Levantou do gramado e se mandou pro vestiário.

Foi uma grande lição, dessas que a gente só aprende longe das salas de aula da faculdade: por trás do craque e ídolo existe um cara que é gente como a gente, que tem seus dias ruins e que tem o direito de não ter paciência para um moleque (na época bem cabeludo) perguntando uma groselha qualquer.

A minha relação com jogadores e treinadores mudou bastante a partir daquele dia: passou a ser mais distante e o mais profissional possível. Eu fazia as perguntas que quisesse e o sujeito respondia se quisesse e como quisesse. Sem grandes dramas da minha parte.

Meses depois o mesmo Neto abandonou um treino e partiu para cima de Vladimir Miranda, então repórter do “Diário Popular”. Motivo: não gostou de uma reportagem que o jornalista havia feito sobre ele, que na ocasião vivia problemas com a balança.

Percebi ali que atletas não são máquinas e que críticas podem, sim, incomodar. Mas não deixei de acreditar que a missão mais nobre do jornalista é contar boas histórias, incomode a quem quer que seja.

Anos depois fiquei impressionado com uma imagem de TV, que mostrava um Neto (então dirigente do Guarani) bem gordo, correndo desesperado no meio de uma tempestade para salvar uma pessoa que estava dentro de um carro a um passo de ser engolida por uma enxurrada feroz. Um ato heroico.

De novo reforcei a convicção de que por trás de um ídolo há um ser humano com suas convicções, fortalezas e coração.

O destino fez com que eu e Neto passássemos para o mesmo lado do balcão. Eu segui jornalista e ele, bem mais magro, passou a ser um grande comunicador, carismático, engraçado, corajoso. Ninguém fica indiferente a ele, goste-se ou não.

Não sei bem o motivo, mas Neto falou sobre mim em seu programa de imensa audiência na TV Band, segunda-feira. Me chamou de “cabelo de saco”. Quando ele me dispensou após uma pergunta boba, anos atrás, aprendi bastante. Preciso ver o que meu barbeiro pode fazer por mim neste caso. Afinal, as outras lições que recebi dele foram muito bem-vindas.



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