A agonia da Primeira Liga



A primeira frase é de Abel Braga, técnico do Fluminense. A segunda frase é de Mano Menezes, técnico do Cruzeiro, justificando a utilização de reservas. As duas sobre a Primeira Liga, o torneio que surgiu como uma possibilidade de enfim decretar a independência dos clubes da CBF e que agora vaga moribunda no calendário brasileiro entupido de jogos como um estorvo que só é lembrado por causa disso mesmo: por atrapalhar a vida de todos.

O campeonato virou um trambolho tão insignificante que a fase anterior aconteceu no começo do ano e os times voltaram a campo só agora. Ninguém se lembrava nem o adversário que seria enfrentado nem em que fase da competição estava. O caderno de esportes do jornal Extra, do Rio de Janeiro, fez uma ótima capa que resumia com perfeição a Primeira Liga: a clássica foto de Macaulay Culkin criança e com cara de espanto, em seu mais famoso papel. A manchete da página: “Esqueceram de Mim!” Em cada um dos lados do rosto do garoto, os confrontos de quarta-feira para os cariocas: Londrina x Fluminense e Flamengo x Paraná.

Os dois cariocas escalaram seus times reservas ou no máximo mistos e foram eliminados por times muito menos poderosos. No Estádio do Café, em Londrina, público de 2966 testemunhas. Em Cariacica, para onde o Flamengo mandou seu jogo contra o Paraná, 9834 pagantes.

Nos jogos Cruzeiro x Grêmio e Internacional x Atlético Mineiro, o público não foi divulgado conforme as regras do Estatuto do Torcedor, o que é apenas mais um sinal da sua irrelevância do torneio. Se no campeonato que foi criado para mudar o patamar do futebol brasileiro uma lei é descumprida, o que esperar?

A Primeira Liga surgiu em um momento de esperança para o futebol brasileiro. Mais ou menos no mesmo período, o Bom Senso F.C. protestava antes das partidas do Brasileiro, jogadores e ex-jogadores renomados se reuniam exigindo mudanças… ali, parecia que finalmente estaríamos livres de amarras históricas e partiríamos para outro patamar: um campeonato organizado pelos próprios clubes e uma geração de jogadores antenada com os problemas e não apenas com o último modelo de iate à venda. Além disso, a CBF viva o ápice da sua fragilidade, em que cartolas eram presos nos Estados Unidos e outros eram investigados por acusação de corrupção.

Aos poucos, porém, as coisas foram se acomodando e voltando ao de sempre. Tite ajudou a salvar o pescoço de cartolas enrolados ao aceitar dirigir a Seleção Brasileira. Os ótimos resultados que o time conseguiu ofuscaram tudo o que ocorre de errado fora de campo. O Bom Senso foi perdendo força e a Primeira Liga se transformou nisso que ela é hoje.

Paulo André, o corajoso representante dos jogadores que levantou bandeiras importantes como a do Bom Senso escreveu para mim tempos atrás, quando eu já andava desanimado com o rumo das coisas. Disse ele que pequenas ações têm poder transformador. Vendo no que se transformou a Primeira Liga e a agonia de outras iniciativas, voltei a ficar desanimado.



  • gilson junior

    E simples. Os clubes grandes do Brasil são INCAPAZES de juntos buscarem uma solução. Preferem disputar os falidos estaduais e se submeterem aos caprichos das federações que não servem pra NADA.

  • Thiago Silva

    A verdade que esse torneio só ficou com a imagem de algo feito por Pirraça de Flamenguistas e Tricolores Cariocas por não ganharem mais os estaduais, a considerar que essa ideia ganhou terreno após Eurico assumir o Vasco e ele deixar declarada aliança com Rubens Lopes. A FPF tem lá seus problemas, mas veja se Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos ficam se rebelando e rodando a baiana por não fazerem as vontades deles. Reflexo disso é que o Flamengo que antes fez tanto desdém quanto o Campeonato Carioca, agora enche a boca pra dizer que ganhou, quando a melhor coisa que deveria fazer é dar de ombros e dar um tapa com luva de pelica na cara da federação.

    Digo, enquanto as organizações desses torneios estiverem sendo feitas por puro interesse egoísta, estarão fadados ao fracasso.

  • Raider Lopes Martins

    Não adianta. Se fosse a proposta como era no início do Torneio Sul-Minas, era ótimo, mas aí depois que acolheu os desafetos Flamengo e Fluminense e abrindo vaga para outros times, como Ceará, Goiás… acabou a lógica.

    E sem contar que pra valer algo, tem que ser da CBF. Não adianta, para o bem ou para o mal, os torneios das confederações são já conhecidos e ainda tem mais nome.

  • Bajirao

    Nem na 1ª Liga o Flafoxglobomengo consegue ser campeão.

MaisRecentes

A lição de Carille e o que vem por aí



Continue Lendo

Em onze dias, o Brasileiro mudou



Continue Lendo

‘Doping’ estimula jogadores do São Paulo



Continue Lendo