Waldir Peres foi um herói improvável



Houve um tempo que ser careca não era descolado. Nem na vida cotidiana e nem no futebol. Não existia ainda o goleiro francês Barthez (campeão do mundo em 1998). Não existia Zidane. Dois carequinhas bons de bola, mas também elegantes fora de campo.

Waldir Peres é desse tempo em que ser careca não era considerado “cool”, entre meados dos anos 70 e fim dos anos 80. E esta figura esportivamente deslocada do padrão da época foi um dos primeiros heróis no futebol de uma geração nascida ali depois da Copa do México.

Waldir não tinha nem muita pinta de goleiro. Comparado com feras de sua época como Leão, fisicamente não dava nem para o começo. Leão era galã, cabeludo, irritantemente arrogante e confiante. Sempre sério. Waldir Peres era careca, mais magro, quando tomava um gol fazia uma expressão que parecia ser um sorriso, o que nunca ficou muito claro para mim. Irritava os adversários como poucos. Mas acima de tudo pegava DEMAIS.

Na minha infância, não apenas são-paulinos, mas também corintianos e palmeirenses queriam ser Waldir Peres. Uma vez um amigo meu arrumou uma camisa cinza de goleiro do São Paulo (igualzinha a do Waldir em um tempo que camisa oficial era quase uma raridade). Por alguns meses este meu amigo desistiu de jogar na linha nas peladas no clube e se mandou para debaixo das traves só para poder fingir ser o goleiro da Seleção.

Waldir ficou marcado pela falha no jogo contra a União Soviética na Copa de 82. Tentou encaixar um chute despretensioso de fora da área de Bal, mas a bola fez uma curva traiçoeira, passou pelo seu lado esquerdo e morreu no gol. Foi a primeira vez que ele não mostrou aquela expressão meio risonha, meio irônica. Aquilo pareceu ter doído de verdade. Este lance apagou uma atuação gigante que ele teve na mesma copa contra a Argentina e de certa forma manchou um pouco sua fantástica carreira. Depois da eliminação para a Itália nunca mais vestiu a camisa da Seleção. Por conta deste jogo contra a União Soviética é comum muita gente dizer que ele destoava daquele desfile de craques que foi a Seleção de 82. Nada mais injusto. Era o melhor goleiro do país.

Para uma geração de meninos que mascava chiclete Ping-Pong 24 horas por dias durante a Copa de 82, Waldir Peres foi um herói improvável. Não tinha cara nem jeito de herói. Mas seus superpoderes eram revelados em cada defesa impossível, na catimba na hora do pênalti, no sorriso irônico que desmontava rivais.



  • Mário Luiz A. silva

    O Atlético MG 77 Que o diga!

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