O álbum de 82



Pense num papel fino, quase transparente. Era este o material das figurinhas da Copa de 82. Pacotinho vendido na banca? Esqueça: a joia vinha enrolada dentro de um chiclete Ping-Pong, uma por unidade, nada de quatro de uma vez só. Às vezes ela estava tão grudada que rasgava na hora de abrir. Assim eu perdi um Renato Pé Murcho. Mas a maior raiva era quando o recorte da figurinha estava errado e a parte de cima era um pescoço e um ombro e a parte de baixo era metade da cabeça do jogador. Nestes casos tinha quem recortava, montava um frankenstein e punha no álbum. Minha turma lá na minha rua não admitia esse tipo de “trapaça”.
Auto-colante? Não sabíamos o que era isso. Era na base da cola Tenaz, um líquido branco que você despejava no álbum, mas que nunca saía na quantidade necessária do tubo: ou era muito ou era pouco. Ou deixava uma bola em auto-relevo atrás da figurinha ou as pontas descolavam.

O álbum de figurinhas da Copa de 82 foi a maior febre que aquela geração de crianças e adolescentes viveu. Nos intervalos na escola o pátio inteiro mascava bolos imensos de chiclete o tempo todo. Aquilo era como um disco raro de vinil, levado debaixo do braço para todo canto. Troca de figurinhas, bafo… Aquela molecada vivia um sonho em um tempo em que o país estava mergulhado numa crise (isso não é lá muito novidade), todos os pais de classe média tinham pavor de perder o emprego, só existiam uns dez modelos de carros diferentes rodando nas ruas, todos nacionais, o aparelho de som da maioria das casas era um “três em um Gradiente” e existiam não mais do que cinco tipos de queijo (nenhum importado) na gôndola dos supermercados.

Quarta-feira foi aniversário de 35 anos da maior tragédia futebolística da minha vida, a derrota do Brasil para a Itália por 3 a 2. (Atenção: eu nunca vou falar ou escrever “a vitória da Itália”, mas sempre vou falar ou escrever “a derrota do Brasil”). E aquele álbum de figurinhas embalou essa história que é triste, mas que não consigo deixar de amar. Lembro como se fosse hoje que após a vitória contra a Nova Zelândia por 4 a 0, o Sandro, um amigo de infância, abriu ao meu lado o álbum na página onde estava a tabela da Copa. Aquela que a gente vai preenchendo os resultados. Ele pegou uma caneta e escreveu no espaço destinado ao campeão: “Brasil”. Olhou pra mim e falou: “O que você acha?”. Fiz que “sim” com a cabeça.

Prudente como sempre fui, não fiz o mesmo no meu álbum. Dias depois, Paolo Rossi fez aquilo tudo e eu desisti de preencher a tabela até o final. Também desisti de abrir novamente o álbum, que ficou desaparecido durante mais de 30 anos, até o dia em que meus pais mudaram de casa, acharam aquela joia em algum armário perdido e me entregaram em um almoço de família. Abri, folheei de trás pra frente, de frente pra trás, até chegar na página da tabela. Ela estava incompleta como eu havia deixado tanto tempo atrás.

Para mim, a Copa de 82 é mais ou menos como esta tabela: incompleta. Às vezes ainda acho que o Zoff não vai pegar a cabeçada do Oscar no cantinho esquerdo no final do jogo.

Já o álbum de figurinhas, que deixei escondido por mais de 30 anos, me lembra uma das melhores épocas da minha vida. Assim como a Seleção de 82.



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