Posse de bola ‘suicida’



Ontem, neste mesmo espaço, escrevi que a campanha assombrosa do Corinthians era um tapa na cara geral: rivais, imprensa, diretoria do clube… E era um tapa também na “posse de bola”. Argumentei que o Timão há anos é um dos poucos times do Brasil que não foi seduzido pelo argumento de “propor o jogo”.

Um dos sujeitos que mais entendem de futebol no Brasil veio até mim e perguntou porque eu insistia na tese de que “posse de bola” é ruim. Por conta disso, achei razoável escrever sobre o assunto e deixar claro: eu adoro posse de bola, mas por conta de vários fatores, no Brasil ela é quase um suicídio.

Times que detém a posse de bola e fazem dela uma arma tanto ofensiva quanto defensiva terão sempre o meu apoio. No meu modo de entender, é a maneira mais linda de se praticar futebol. Alguns dos grandes times da minha vida foram assim, como a Seleção de 82.

Ocorre que para o jogo de posse de bola funcionar é necessário treino. Muito treino, além de capacidade técnica e inteligência. E, além de tudo, é necessário tempo. Muito tempo.

A forma como o futebol brasileiro é estruturado torna esta tarefa quase uma impossibilidade. O calendário, as janelas de transferências, a saúde financeira dos clubes e o imediatismo que contamina todos são fatores que minam a tentativa de um jogo mais elaborado.

Muitos times que tentaram fazer um jogo de imposição pela posse de bola ficaram pelo meio do caminho, tiveram seus trabalhos interrompidos e começaram tudo de novo de outra forma. O Santos talvez seja o último exemplo disso, com Dorival Júnior. Houve tempo, houve um momento em que o time jogou o melhor futebol do país, mas em determinado momento houve a sensação (quem sabe ilusória) de que não havia mais evolução. E o trabalho acabou.

Rogério Ceni chegou ao São Paulo pensando em formar um time ofensivo, que marcasse pressão no campo do adversário. Os resultados imediatos não vieram, alguns jogadores que ele contava foram embora, ele mudou o jeito de jogar e sua ousadia inicial pode ser castigada com uma demissão se o time não entregar vitórias em breve.

Foi o que aconteceu com Eduardo Baptista no comando do Palmeiras. Ele quis propor um jogo muito diferente daquele praticado pelo seu antecessor Cuca. Caiu com poucos meses de trabalho.

Para mim, não há nada tão lindo de ser ver no futebol como a troca de passes que mói o adversário como uma jiboia espremendo sua presa. Mas tentar isso no Brasil, com tantos obstáculos, soa quase como loucura.



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