Mimimi ou verdadeiro?



A sala de entrevistas estava lotada de jornalistas. As TVs interromperam a programação normal para transmitir ao vivo. Sites reforçaram seus servidores porque a audiência prometia ser brutal e nada poderia dar errado. Jornais mandaram repórteres e analistas. Blogueiros independentes apareceram. O Brasil aguardava aquele momento.

O homem entra na sala. O terno bem cortado, a gravata impecável combinando com o restante, o cabelo muito bem alinhado, a pele sadia. Mas nada disso conseguia esconder a angústia daquele sujeito, que tinha muito a dizer. Por dentro, o cara estava corroído, não conseguia mais guardar o que ele sabia. O destino do país dependia do que fosse revelado naquela tarde de outono.

Ele senta diante da mesa, ajeita o microfone, dá aquela batidinha com o dedo para ver se está funcionando, se ajeita na cadeira, dá uma afrouxada discreta no nó da gravata e fala, com a voz ainda fraca, atrapalhada por um pigarro: – Boa tarde a todos.

– Boa tarde. Respondem os repórteres numa voz só.

O homem dá um suspiro e emenda.

– Vocês querem o cara verdadeiro ou mimimi?

Silêncio. Repórteres se entreolham sem entender. O diretor de TV ameaça cortar a transmissão e voltar à programação normal. Seria uma estratégia do advogado de defesa? Ou o homem enlouqueceu? Está fazendo uma brincadeira com todos que estão ali para quebrar o gelo? O Sergio Mallandro vai aparecer de repente e gritar: Rá! Pegadinha do Mallandro!” ?

A resposta parte de uma blogueira desconhecida do grande público, que só conseguiu estar ali depois de insistir muito para ter seu credenciamento aceito. Ela levanta o dedo da sua mão pequena, com vergonha, como se estivesse querendo fazer uma pergunta para a professora na sala de aula.

– Queremos o cara verdadeiro…

Esta história termina aqui e o fim dela fica por sua conta. Mas se você teve paciência para chegar até este ponto deste texto deve ter percebido que a frase do homem é exatamente a mesma que Felipe Melo falou quarta-feira, após a vitória do Palmeiras sobre o Mirassol pelo Campeonato Paulista, ao ser cercado por repórteres. Minutos antes dentro de campo ele havia feito seu primeiro gol pelo Verdão e comemorado imitando um pitbull, sua marca registrada.

Felipe Melo fez a pergunta inusitada quando foi questionado sobre suas declarações, sempre diretas, provocativas. Em qualquer área do jornalismo, tudo o que deseja é o “cara verdadeiro”. Nada pior do que um personagem que fala e não diz nada ou que mente. No esporte há sempre uma certa divisão sobre este tema. Há quem considere que declarações fortes podem desrespeitar rivais, provocar violência ou ainda fazer parte da construção de um personagem.

Mas nem o mais puritano dos jornalistas esportivos pode discordar que Felipe Melo é uma fonte inesgotável de pautas para debates esportivos e reportagens.

Claro que há o outro lado da moeda. O volante palmeirense será cobrado quando as coisas derem errado. Não duvide: tudo o que ele falou e que ele falar daqui para frente será engarrafado com cuidado e no primeiro deslize tudo virá à tona. É assim que funciona e, aparentemente, ele sabe bem como o jogo é jogado e não se importa com as consequências.

Já pensou se em Brasília todo mundo fosse meio Felipe Melo. Quem acharia ruim?



  • Renato Rasiko

    O Flamengo fez uma grande besteira em não contratar o Felipe Melo. Além de não haver comparação entre ele e o Rômulo, o cara é flamenguista da gema. Mais uma furada do departamento de futebol que não entende da matéria.

  • Por um futebol com mais jogadores assim. Eu adorei as palavras que ele disse após a vitória contra o Santos, e como os românticos dizem: “o futebol respira”.

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