Por que precisamos ouvir Bruno?



O tema que dominou a semana não tem nada a ver com esporte, mas na verdade tem muita coisa a ver: o goleiro Bruno. O assunto já foi tratado aqui em minha última coluna, mas achei necessário voltar a ele.

Muita gente foi contra a cobertura feita pela imprensa da entrevista coletiva que o goleiro deu em sua apresentação ao Boa. O argumento era o de que não é correto dar voz a um sujeito que foi condenado por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver e que só está solto por uma determinação provisória da Justiça, uma vez que sua pena de 22 anos não chegou nem na metade.

Sob este aspecto, dar espaço para Bruno seria um desserviço, uma busca desesperada por audiência, sensacionalismo. Para estas pessoas, Bruno deveria ser esquecido, nunca mais poderia aparecer em TVs, internet, jornais e revistas. O ostracismo seria a punição.

Não entendo assim. Uma forma de se levantar o debate sobre o crime e todos os debates que vêm em seguida (feminicídio, a Justiça brasileira, o direito à ressocialização, etc, etc…) é fazer com que o tema não caia no esquecimento.

Não há quem veja a figura de Bruno sem se lembrar imediatamente do crime macabro a que ele foi condenado. O goleiro ficou preso durante quase sete anos e neste período o tema arrefeceu e desapareceu. Quando foi solto, voltou à tona. E um dos papéis do jornalismo é exatamente este: fazer com que isso seja sempre lembrado.

Claro que não se admite censura. O presidente do Boa tentou limitar as perguntas ao goleiro ao âmbito esportivo, mas jornalistas perguntaram mesmo assim. Também nas entrevistas exclusivas ele foi questionado sobre o que não queria falar. Uma das missões desta profissão é fazer com que as pessoas falem o que elas querem esconder.

“Ah, se fosse a sua filha que tivesse sido assassinada você toparia falar com o goleiro Bruno?” Não, porque o jornalismo também pressupõe distanciamento e o pai de uma vítima certamente não teria neste caso.

O jornalismo, esportivo ou não, está cheio de histórias de pessoas abomináveis que foram ouvidas e que trouxeram novidades sobre algum assunto. No limite, há o caso de Truman Capote e seu livro “A Sangue Frio”, obra-prima do chamado New Journalism. Se você não leu, recomendo. Vale a pena.

O papel da profissão parece ter ficado um pouco obscuro com as mídias sociais. Nelas, o usuário escolhe com quem e o com o que ele quer estabelecer contato. Normalmente o sujeito se abastece de opiniões que combinam com a sua, negando o contraditório. Aí é compreensível que uma entrevista com um condenado por assassinato cause repulsa e parece não ser necessária.

Achei muito interessante o que escreveu o jornalista Márvio dos Anjos sobre o assunto no Twitter. “Para mim é simples. Que repórter você gostaria de ser: o que jamais entrevistaria Bruno ou o que arrancou a confissão dele?”



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