Abel resiste



Há alguns anos fiz uma entrevista exclusiva com o Abel Braga nas Laranjeiras. E o resultado foi ruim. Como era a primeira vez que faria uma entrevista para TV (até então só tinha trabalhado em jornal), posso ter ficado nervoso, preocupado muito com a forma e menos com o conteúdo… fato é que ficou ruim e todo o aparato de luz, câmera e produção me pareceu muita coisa pelo resultado que gerou.

Ao final do papo, as câmeras foram desligadas, eu falei “obrigado” e ele respondeu. “De nada. Boa sorte pra você. Porque sem sorte não se vai a lugar nenhum.”

Se eu já achava até aquele momento que a entrevista tinha sido fraca, depois do que Abel me disse passei a ter certeza. Voltei para a redação ruminando que ele tinha sido carinhoso comigo diante do que aconteceu. Passei a admirar mais a figura, que sempre foi assim: um paizão com jeito de brabo, mas com enorme coração.

Chegamos em 2017 e Abelão é um dos últimos representantes de uma turma que está saindo de cena no futebol brasileiro. Contemporâneos seus foram para a TV, outros estão desempregados, outros dirigindo times menores. Ele acaba de ser campeão da Taça Guanabara, batendo o poderoso Flamengo, de melhor elenco e mais grana.

Além de um Fla-Flu, a final de domingo também foi um embate de gerações. A nova, com seus estudos, seus 4-2-3-1, seus balanços defensivos, suas triangulações, o 4-1-4-1… E a de Abel, que na sua primeira entrevista ao ser apresentado no Flu no começo deste ano falou: “Este time terá alma”.

Na ânsia de ver o futebol brasileiro dar o passo que necessita dar, de aperfeiçoamento de seu jogo entre outras coisas, acabamos olhando com um certo descrédito para quem vem de um tempo passado. Abel se sentiu desafiado e vem mostrando que as desconfianças foram injustas. No Fla-Flu, mostrou repertório e seu time levou a taça.

Quando me desejou sorte depois de uma entrevista ruim, Abelão provavelmente quis levantar meu astral. Ele mesmo é um grande exemplo de que o sucesso não é apenas uma questão de sorte. Fazer este Flu ser competitivo é muito mais do que isso.



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