Na contramão



O Carnaval do Rio de Janeiro de 2017 ficará marcado por boas e péssimas recordações. Foi o ano em que a Portela saiu de um imenso jejum de 33 anos e das tragédias que aconteceram no Sambódromo. E que desembocaram no tapetão, que eliminou o rebaixamento.

Os mais entendidos no assunto (não é o meu caso) vão lembrar de algumas notas incompatíveis dadas a escolas envolvidas em algum dos acidentes. Para o leigo, o que chama mais a atenção depois da situação das vítimas é mesmo o tapetão.

Anistiar as escolas envolvidas no caso dá aquela sensação de marmelada, de jeitinho. Ou seja, tudo o que não combina com competição. Por mais que estejamos falando de Carnaval, festa e diversão. Mas se está determinado que haverá disputa, mudar o regulamento no meio do caminho é desastroso para a credibilidade do negócio.

A torcida presente no sambódromo para a apuração reprovou quando foi anunciado que não haveria rebaixamento. Vaias foram ouvidas. Nas mídias sociais a reação também foi das mais negativas. O que dá a dimensão de algo que vem acontecendo cada vez mais no Brasil: a sensação de que os homens do poder estão completamente desconectados do que acontece na rua.

No futebol acontece o mesmo. Dentro de gabinetes são decididas medidas, dentro dos tribunais são dadas punições ou anistias que não têm eco com o que o torcedor tem visto aqui fora.

Assim, os regulamentos de alguns campeonatos estaduais, por exemplo, beiram a bizarrice. Em São Paulo, houve um momento em que todos os componentes de um mesmo grupo não tinham pontos. Se o campeonato acabasse ali, um deles (o menos pior) obrigatoriamente teria que avançar para a próxima fase. Quer algo mais descolado do princípio da competição e do desejo do torcedor?

A canetada dos tribunais Brasil afora decretando torcida única em jogos é outro bom exemplo. Qualquer pesquisa bem feita indicará que o torcedor não aprova esta imposição. O que ele quer é algum tipo de garantia de que poderá sair de casa e voltar em segurança. Não se pode confundir isso com o desejo (criado dentro de salas com ar-condicionado) de que ele quer mesmo a exclusividade de ir ao jogo sem topar com adversários. A final da Taça Guanabara, domingo, será mais um passo neste sentido. Fluminense e Flamengo entrarão em campo, mas só torcedores do Tricolor estarão presentes, caso a medida não seja derrubada até lá. Um desastre.

Quando a Liga das Escolas de Samba decreta que o que foi acordado no começo de tudo não vale mais agora que o desfile já aconteceu, é um recado dado ao fã do carnaval: você pode curtir, mas desde que “eu” tenha o poder de decisão.

Em várias divisões do futebol brasileiro a atuação dos tribunais vai na mesma linha. Semana passada a Ferj isentou o Vasco de ser punido por escalação irregular de jogador. Casos semelhantes ocorreram sem que as entidades assumissem culpa.

Ano que vem teremos de novo carnaval, desfiles maravilhosos, novos campeões e, espera-se, escolas rebaixadas. A indignação de hoje vai passar. Mas tanto nesta festa como no futebol, cada interferência dos engravatados mina um pouco o esporte. A quem isso interessa?



  • Andres Nicola Pagan Candia

    Grande Tironi! Acompanho seu blog e seus comentários na ESPN.. vi que estava curtindo o Bagunça Meu Coreto lá em Laranjeiras no carnaval.. ia te dar abraço, mas o momento era curtição sem encheção.. então deixo aqui o meu abraço! Parabéns pela sensatez e isenção nos comentários!

MaisRecentes

A torcida que salvou um time salvará de novo em 2018?



Continue Lendo

A lição de Carille e o que vem por aí



Continue Lendo

Em onze dias, o Brasileiro mudou



Continue Lendo