O mundo gira



Thiago Duarte Peixoto sacou o cartão vermelho e apontou para Gabriel. Foi imediatamente cercado por jogadores do Corinthians, ouviu que a advertência tinha sido dada ao jogador errado, foi ao auxiliar, ouviu que o autor da infração era outro atleta, deu de ombros, manteve sua posição com peito estufado, abrindo mão de todas as ponderações que chegaram até ele, como uma autoridade máxima em um ambiente muitas vezes acredita que deve fazer.

Ao fim da partida, um outro Thiago veio a público. Olhos marejados, fala mansa, envergonhado. Pediu desculpas pelo erro monstruoso, lembrou de um drama pessoal que sofreu (para a vida dele verdadeiramente muito maior do que um erro em um jogo de futebol), implorou para que possa seguir a sua carreira, pediu licença para poder ir para casa abraçar o filho e refletir sobre o pesadelo que foi a noite de quarta-feira.

Nas últimas semanas Roberto de Andrade falava baixinho. Repetia a cada aparição que é inocente, que nunca pisou em uma delegacia na vida, que quer o melhor para o Corinthians. No meio da semana, escapou de ser chutado do clube em um processo de impeachment que acabou não acontecendo e evitou uma enorme humilhação. Com o cargo assegurado após a sessão do Conselho Deliberativo, deu entrevista ainda de cabeça baixa, falando baixo, reiterando sua inocência e sua vontade genuína de ajudar o clube do coração.

Quarta-feira, após o clássico contra o Palmeiras ele falava alto. Peito estufado, isentou a Federação Paulista de qualquer responsabilidade na barbeiragem do apito, bradou que Thiago Duarte não deveria comandar nem jogo de condomínio mais e desdenhou quando falaram a ele que o árbitro havia chorado. Logo o presidente, que teria também derrubado suas lágrimas diante de seus pares dias antes de escapar do impeachment.

No fim do ano passado, Gabriel apareceu no trio-elétrico palmeirense pós-conquista do título brasileiro cantando a famosa música: “Doutor, eu não me engano… #%@/^# é corintiano!”. Quarta-feira, pós-vitória do Timão, apareceu em um vídeo de internet dando uma sacaneada nos palmeirenses.

Interessante como a posição em que o sujeito se encontra determina muitas vezes seu comportamento. Enquanto Thiago era a autoridade máxima dentro de um dos clássicos mais importantes do mundo, não deu ouvidos a ninguém, acreditou cegamente em suas convicções e foi até o fim bancando um erro clamoroso. Quando tudo mudou e ele percebeu que só não era mais vilão porque Jô o salvou com um gol no final, veio a público de terno, implorando para que sua carreira não acabe.

Enquanto vivia o fantasma de ser o primeiro presidente da história do Corinthians a ser chutado do cargo, Roberto de Andrade tinha o olhar triste, a cabeça baixa e a fala tímida. Quando o pior passou, se transformou no cartola corajoso, que enfrenta árbitros, que não aceita desculpas de Thiago Duarte, que manda “chorar para sempre”, que exige punições a quem quer que ouse prejudicar seu time.

O mundo gira. Esta frase é tão surrada quanto sábia.



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