Morte de torcedor não incomoda mais



Outro dia um grande amigo meu (e também o cara que me ensinou quase tudo do que sei sobre jornalismo) me mandou uma mensagem dizendo que um produtor que trabalha hoje com ele iria entrar em contato comigo. O sujeito estava fazendo uma reportagem sobre os 25 anos da morte de Rodrigo de Gásperi, o primeiro torcedor morto em brigas de torcida de que se tem conhecimento no Brasil. Ele queria algumas informações.

Não pude ajudar porque não participei daquela cobertura. Mas a morte de mais um torcedor, domingo, no clássico Botafogo x Flamengo, me alertou para algo: a diferença enorme sobre como reagíamos no passado e como reagimos hoje em casos como este.

A morte de Rodrigo de Gásperi foi um grande acontecimento. A cobertura foi extensa, durou dias. Cada passo da investigação foi divulgado, o drama dos familiares foi explorado…

Até certo momento do dia, Diogo Silva dos Santos não tinha nem nome. Ele era só mais um na estatística de uma nota fria divulgada pela Secretaria de Municipal de Saúde, que citava outros sete ou oito feridos em uma briga.

Um telejornal noturno do domingo classificou a vítima como “uma pessoa de 28 anos”, sem mais nenhum detalhe.

Nas mídias sociais, mais do que com a morte de Diogo, a indignação foi com relação esta postagem no Twitter do perfil oficial do Flamengo. “Cadê você? Não adianta fugir, não adianta correr. Deu Mengão no Engenhão só com a Nação: 2 a 1!”

O perfil oficial do Botafogo reagiu desaprovando e falando em desrespeito em um momento que deveria ser de luto.

Mas a tuitada rubro-negra não é muito diferente do que a reação da maioria com relação à morte: a de indiferença. Difícil imaginar que o operador do perfil oficial do Flamengo quisesse provocar o rival com relação à vítima. A ideia foi provocar com relação ao jogo, ao comparecimento da torcida, etc… como se não houvesse um corpo estendido no chão.

Isso tudo mostra como este tipo de incidente não incomoda mais ninguém. Pelo contrário, a morte de um torcedor em uma briga já está naturalmente inserida dentro do pacote de um clássico. No limite, vai chegar o dia em que os auto-falantes do estádio ao fim da partida vão divulgar o público, a renda e as vítimas do fim de semana. Só com números.



  • Edison Lopes

    Realmente não pode abusar da inteligencia do torcedor, leitor ou telespectador. È preciso mostrar tudo e a todos de maneira uniforme. O que mais queria agora, era ver um belo trabalho da Polícia na identificação desses criminosos, e que a Justiça fizesse a sua parte. Cadeia nêles.

  • J.H

    Parabéns pela postagem. Desta vez não vimos filmagens “exclusivas” dentro de ônibus com torcedores detidos semi nus e humilhados, muitos dos quais nem sabiam porque estavam alí. Espetáculo midiático exibido com alarde no horário nobre da TV. Em nome da “paz nos estádios”, levados para Bangu e alí deixados a própria sorte em meio a facções criminosas. Não que não deveriam ser punidos, mas a seletividade da exploração da mídia nesses dois casos ficou evidente. Depois reclamam do descrédito com aqueles que tem a obrigação de informar. Podem reclamar dizendo que nossa posição é “apaixonada” por um clube, porém ignorar a seletividade intencional é um abuso a inteligência do torcedor leitor ou telespectador do futebol.

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