A várzea épica



Contada de trás para frente, a história da classificação do Tucumán na Libertadores fica maravilhosa. Ou “épica”, a palavra da moda no futebol, usada agora para classificar qualquer vitória com um grau razoável de imprevisibilidade.

Bom, a história é que o pequeno time do norte da Argentina decidiu viajar em cima da hora para o jogo conta o El Nacional de Quito para minimizar os efeitos da altitude. Para isso, descumpriu um dos pontos do regulamento da Libertadores, que obriga as equipes a estarem na cidade da partida ao menos 24 horas antes do apito inicial. Como se sabe, deu tudo errado: o time não chegou a tempo e uma das razões foi o fato de ter fretado um voo de uma pequena companhia que não tinha permissão para operar no Equador. Isso te lembrou algo?

A chegada do time ao estádio (com um grande atraso) foi possível porque a delegação viajou em um ônibus que correu a 130 quilômetros por hora. Entrar em campo só foi possível porque o time emprestou uniformes e equipamentos da Seleção Argentina sub-20 que disputa o Sul-Americano no Equador. O adversário topou jogar. O final é incrível. Os guerreiros passaram por todos estes obstáculos e conquistaram a classificação (“épica”) fora de casa.

Contada de trás para frente, a história da Chapecoense é apenas triste. Um time de baixo orçamento do futebol brasileiro faz a viagem que pode lhe dar um título internacional, mas tudo dá errado. O avião cai, o elenco é dizimado e sobram apenas histórias milagrosas dos poucos sobreviventes.

Contada de trás para frente, a classificação do Botafogo para a próxima fase da Libertadores também tem sua dose de heroísmo. Os jogadores foram bombardeados por uma chuva de objetos arremessados pela arquibancada quando empatava o jogo contra o Colo-Colo em Santiago e encaminhava a sua passagem para a próxima fase. Como no final a vaga veio, tudo se tornou incrível. Se algo desse errado e os chilenos passassem, o discurso seria de que a “Libertadores é uma várzea”.

Interessante como a reação das pessoas dependendo do desfecho de uma história muda. A classificação do Tucumán poderia ser uma grande tragédia se o ônibus a 130 quilômetros por hora sofresse um acidente. Poderia ser uma enorme trapalhada se o time não conseguisse entrar em campo. Poderia ser um retrato da zona que é a Libertadores se os jogadores extenuados atuassem, mas fossem derrotados com facilidade. Mas não. Virou heroísmo e tudo o que antecedeu ao jogo se transformou apenas em combustível para alimentar uma história inacreditável.

A tragédia da Chape poderia ser uma linda saga se o avião tivesse pousado com segurança em Medellín, o time comandado por Caio Júnior tivesse segurado o campeão da Libertadores na Colômbia, feito o mesmo em casa e levantado o título da Sul-Americana no campo. Quantas histórias não seriam contadas sobre o elenco modesto que alcançou o ponto em que gigantes nunca chegaram? E quantas barbaridades estariam ainda escondidas, a maior delas a liberdade de atuar de uma empresa com um piloto/dono no mínimo irresponsável?
Qualquer aspecto de irresponsabilidade, desorganização ou perigo desaparece com um final feliz. Assim, o caráter varzeano da Libertadores se transforma em heroísmo a cada pedra atirada na cabeça de um jogador, a cada atraso no começo das partidas. Mas como o mundo real não é um conto de fadas, nem sempre a história termina bem.



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