O treino diferente do São Paulo



Uma vez no ginásio surgiu uma professora nova de Educação Artística. Ela era muito jovem, nem tinha cara de professora. Estava mais próxima de ser um de nós alunos. A primeira aula simplesmente não aconteceu porque 40 adolescentes indomáveis impediram qualquer tipo de atividade. Gritos, risadas, bolinhas de papel…

Dois dias depois, uma outra aula com a moça e a coisa se encaminhava para o mesmo destino. Gritaria, correria na classe… o caos. A professora começou a desenhar círculos, quadrados e triângulos no quadro negro e ninguém entendeu nada. Teve adolescente rindo, achando que a mulher tinha enlouquecido.

Até que ela conseguiu explicar o que queria. Cada figura geométrica era um código que representava um tipo de som: “bum-bum!”, “tagadagadá” e “tchitchiritchitchi”. A ideia era fazer uma fanfarra só com vozes na sala de aula.

A proposta começou a interessar os alunos. Era uma atividade diferente, não precisava de caderno, de anotações… A sala foi acalmando, a molecada foi se sentando, a professora foi tomando controle da situação, explicou o que era a “brincadeira” e no fim todo mundo remou para o mesmo lado. E a fanfarra vocal ficou muito legal! (a ponto de eu, um dos alunos rebeldes, lembrar desta história até hoje).

No fim das contas a professora nunca mais voltou, ninguém sabe se ainda abalada pelo primeiro dia de aula ou se partiu para outra na vida. Mas naquele dia ela conseguiu algo muito difícil: trazer a atenção de um grupo de moleques com uma atividade diferente, inovadora e interessante.

Quarta-feira o São Paulo iniciou suas atividades para a temporada de 2017. Além dos chatos testes físicos, que nenhum jogador gosta de fazer, o grupo foi levado para o campo. Quando se imaginava alguma atividade com bola, Rogério Ceni apresentou um dardo de borracha azul e laranja. O primeiro treino foi como um jogo de futebol americano, com o tal dardo de borracha. Depois teve treino em campo reduzido, na forma que os jogadores estão mais acostumados.
Mas fato é que a primeira atividade do ano surpreendeu a imprensa e também os jogadores. Quando deu a primeira entrevista no dia da sua apresentação, Ceni disse que um de seus desafios era fazer com que os treinamentos fossem atraentes para os atletas. Provavelmente esta foi a sua primeira tentativa de colocar seu plano em prática.

Ceni não é uma professora de ginásio desconhecida jogada às feras tentando trabalhar. É o maior ídolo da história de um gigante do futebol brasileiro e retornou ao clube agora como treinador com todo o respaldo que merece. A comparação só vale sobre o método: como fazer com que um grupo se interesse pelo trabalho proposto e reme na mesma direção.

Como o futebol é cruel e qualquer trabalho só é avaliado pelo ponto de vista do resultado, a atividade com um dardo de borracha já está arquivada na memória de todos os críticos e será utilizada de forma desleal se as coisas em campo não forem positivas.

Mas ao menos uma coisa está acontecendo: até agora (e foi pouco, é verdade) Rogério está cumprindo na prática as ideias que pensou e anunciou.



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