O sorriso do palmeirense



Um amigo veio com um papel em minha direção. Nele, um campo de futebol desenhado e nomes formando um esquema tático, acho que no 4-2-3-1 ou 4-3-3, não me lembro bem. Um detalhe: no espaço para cada posição em campo não havia apenas um, mas uma lista de três jogadores, inclusive no gol.

Antes que eu pudesse compreender, meu amigo -palmeirense com o orgulho de quem acaba de ser campeão brasileiro- sorriu e me explicou:

– Aqui estão os três times do Palmeiras para 2017.

Arranquei o papel da mão dele, olhei um por um, reparei que ali não estava Felipe Melo no meio de campo e isso foi tudo o que pude responder, tentando achar defeito na lista:

– Falta o Felipe Melo.

No que ele rebateu: – Só coloquei quem já está contratado. (e em seguida sorriu de novo e guardou o papel no bolso sem deixar de olhar para os meus olhos nenhum segundo).

À noite, numa pizza com amigos, uma fatia da longa mesa conversava animada, todos gesticulando, pegando guardanapos para explicar alguma coisa. Em alguns momentos discordavam, mas com sorrisos largos no rosto… clima mais ameno impossível.

Foi quando alguém, distante daquele grupo e ao meu lado, comentou:

-Aquele papo ali deve estar insuportável.

Estranhei e perguntei o motivo. E a resposta foi:

-Todo mundo ali é palmeirense. Estão discutindo sobre o time do ano que vem, quem joga, quem não joga, quem ainda vai ser contratado…

Vindo de um não-palmeirense, como era o caso, o incômodo do sujeito tinha sentido.

“La Dolce Vita” do torcedor alviverde tem se resumido a isso desde que o Palmeiras foi campeão brasileiro outro dia. Pensar como o forte time pode ficar ainda mais forte com mais contratações, mesmo que o Alviverde tenha sido quem mais se reforçou nos últimos dois anos.

Os exemplos da fome verde são claros. Felipe Melo passou os últimos anos sendo especulado no São Paulo o Flamengo. Há uma semana o Palmeiras entrou na briga e foi com ele que o jogador se acertou (falta o acordo com a Inter de Milão).

O empresário de Michel Bastos não revelou para onde seu contratado vai em 2017, mas deu uma pista: ele estará na Libertadores. É pouco provável que um time não-brasileiro tenha bala para levar o caro meia. Assim, ele deve permanecer no Brasil e todas as apostas são direcionadas, é claro, para o maior comprador do nosso futebol da atualidade.

Quando me aproximo do local em que os palmeirenses discutem na mesa o futuro do clube, adivinha qual era o tema? Acertou se você disse Michel Bastos. -Será que vale a pena mesmo? -Mas com tanta gente no elenco, será que a gente precisa? -Ele, com vontade, é melhor do que alguns titulares do time… São algumas das frases que ouço.

Enquanto o Palmeiras vai às compras, os rivais se agarram a outras possibilidades para imaginar que lutarão contra o time que desponta como favorito de novo. O Rubro-Negro aposta no seu bom elenco e na política de austeridade financeira que poderá render frutos brevemente. O são-paulino crê no mito Rogério Ceni e nada mais. O Corinthians não tem muito em que acreditar, mas pensa que Carille pode ter sido um acerto gerado a partir de um erro. O torcedor do Galo olha Roger Machado, olha seu elenco e sonha com um 2017 muito melhor do que foi 2016.

No futebol, a realidade muitas vezes é bem diferente do planejado. Mas por enquanto, o palmeirense é quem mais tem motivo para sorrir aquele sorriso de quem está por cima.



  • Bruno Alves

    Futebol é cíclico demais, e olha que eu sou palmeirense. Já vi esse time detonar quem veio pela frente, ganhar tudo e mais um pouco, cair pra segundona duas vezes, se afundar em dívidas… o momento é perfeito e só alegria, mas não estamos na Europa onde a boa fase financeira dura muito. A felicidade de hoje logo passa, então pés no chão. Pelo menos eu penso assim.

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