A tragédia e o futebol



Foi na segunda-feira que um grupo de amigos discutia animadamente sobre futebol. Parte dele tentava explicar à outra parte que não é só um esporte, que não é só ganhar e perder, mas muito mais do que isso. Havia quem não entendia porque alguém chorava ou se irritava quando um time perdia ou urrava de emoção nas vitórias.

-Por que isso interfere tanto na vida de vocês, se as pessoas que estão lá jogando não sabem nem das suas existências? Era a pergunta mais frequente da turma que não entendia a paixão pelo futebol. E quem gosta do esporte não encontrava nenhum contra-argumento racional o bastante. E a resposta várias vezes foi:

-É difícil explicar pra que não gosta.

Horas depois o avião que levava a Chapecoense para a Colômbia se espatifou no chão a poucos quilômetros do aeroporto de Medellin, interrompeu o sonho de atletas, jogadores e de uma cidade. E o mundo foi tomado por uma comoção pouquíssimas vezes vista diante de qualquer acontecimento. Houve jogos de futebol com minuto de silêncio em todos os cantos do planeta, homenagens, choro, comoção. O ápice disso tudo aconteceu no estádio Atanasio Girardot, palco em que seria realizada a primeira partida da final da Copa Sul-Americana entre o Atletico Nacional local e a Chape.

Torcedores que estariam no estádio para empurrar o time colombiano contra a Chapecoense na decisão do torneio sul-americano passaram horas no local com velas na mão, entoando cânticos do time catarinense, chorando, se emocionando, lamentando. O único traço de união entre aqueles colombianos e a Chapecoense era o jogo que seria realizado entre os dois clubes.

A pergunta que um dos participantes fez na conversa citada no começo do texto deveria ser repetida:

-Por que isso interfere tanto na vida de vocês?

Que fique claro: a tragédia não é maior porque está inserida no mundo do futebol. Ela é dolorosa e terrível o bastante por si só. Mas a dor foi espalhada e tocou o mundo todo por conta do esporte, não se pode negar. O contexto em que ela aconteceu é muito especial: um time que viaja para o maior momento de sua vida vê seu sonho interrompido por um avião com um tanque de gasolina vazio.

Entre tantas frases ditas nos últimos dias, a de Mano Menezes, treinador do Cruzeiro, talvez seja a mais precisa sobre o futebol.

-Que as pessoas entendam que um campo de futebol não é só um lugar onde dois times disputam um jogo. Nessas horas, as reflexões se voltam bastante pra isso, e pode servir para uma melhora, infelizmente num caso trágico com esse.”

O mar de solidariedade que inundou o planeta nos últimos dias deveria servir de exemplo para o nosso dia-a-dia. Ter surgido isso em um mundo tão competitivo e cada vez mais individualista foi como uma injeção de esperança na humanidade e em dias melhores. Não dá para negar que o futebol foi um catalisador disso.

Uma frase famosa de Bill Shankly, que foi técnico do Liverpool, é definitiva: “O futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso.”



  • Mario

    E se os clubes se unissem para forçar a CBF a cancelar TODAS as partidas e, consequentemente, a rodada 38 do Campeonato Brasileiro de 2016 em nome do luto do futebol brasileiro por conta do acidente com a Chapecoense ?

    Como um clube não pode ser rebaixado sem que um campeonato chegue ao fim, o Internacional poderia ingressar com um processo no STJD pelo seu direito de, caso houvesse a rodada 38, conquistar 3 pontos e ultrapassar o Sport na hipótese deste não sair vencedor do jogo contra o Figueirense. Assim sendo, a alternativa seria subirem 4 times da segundona sem rebaixar ninguém. Assim, a série A poderia rebaixar oito em 2017 para a segundona de 2018.

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