‘Não é problema meu’



Um bom resumo sobre como funciona a cartolagem brasileira surgiu quinta-feira nas páginas dos sites esportivos. Perguntado sobre a punição que o STJD aplicou ao Grêmio, tirando seu mando de campo na final da Copa do Brasil, o presidente do Atlético Mineiro respondeu desta maneira:

– Problema do Grêmio com o STJD. O Atlético-MG tem time para jogar em qualquer lugar. Não é o problema do Atlético-MG onde o jogo será disputado. Não interessa onde será a final. Temos que focar no nosso time. E nosso time está muito focado para estes dois jogos finais, disse Daniel Nepomuceno.

Como se sabe, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) entrou em campo mais uma vez e tirou o mando de campo do Grêmio na partida final da Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro porque na semifinal contra o Cruzeiro na arena gremista a filha de Renato Gaúcho, Carol Portaluppi, invadiu o campo após o fim da partida para abraçar o pai e comemorar a classificação.

De tão absurda, esta decisão (mais uma) do STJD não teve vida longa e foi derrubada sexta-feira. O Grêmio deverá pagar uma multa pela infração, o que qualquer um, até mesmo o presidente do Galo, deve concordar.

O mandatário do Atlético Mineiro lavou as mãos sobre o que fez o tribunal esportivo. Em tese, ele foi o beneficiado da vez, embora não tenha trabalhado neste sentido e não tenha nada a ver com isso. Mas na mesma medida não fez nenhum esforço no sentido contrário, no mínimo lamentando um ato tão absurdo.

Amanhã poderá acontecer o inverso, porque se há algo que o STJD sabe fazer é trapalhada. Não será espantoso se, numa ocasião futura, o próprio Galo sofra por conta de algum iluminado do tribunal e suas sentenças malucas. E aí é que vale mais uma vez a discussão sobre o papel dos cartolas brasileiros. Nepomuceno é só o exemplo da vez, mas todos sem nenhuma exceção agem da mesma maneira e, provavelmente, repetiriam as palavras do presidente do Galo numa mesma situação.

Neste ambiente de “cada um por si” o único vencedor é o próprio STJD, uma entre tantas entidades nocivas para o futebol brasileiro.

Cansamos de ver cartola reclamando de arbitragem em um dia que seu time foi prejudicado e fazendo um silêncio constrangedor quando o mesmo time foi beneficiado. Já vimos, por exemplo, Paulo Nobre mandar carta de apoio à Comissão de Arbitragem em um dia para meses depois bater na mesa e bradar que “ninguém vai tirar o título da gente na mão grande.” Já vimos corintianos calarem-se diante de seguidos erros a seu favor em 2015 (ano em que o clube foi campeão) e já vimos reclamações sobre arbitragem contra o time em 2016, ano em que o Timão se arrasta no campeonato.

O simples gesto de Nepomuceno é parte da explicação pelo fato de o futebol brasileiro evoluir tão vagarosamente. Não há dúvida de que a atua geração de dirigentes é melhor preparada do que a anterior, mas isso ainda é pouco. Alguns vícios foram herdados de quem está saindo de cena e insistem em permanecer em um ambiente cada vez mais de negócio e não só de paixão.

A união entre os clubes é o passo mais decisivo para o avanço do futebol brasileiro. O “cada um por si” que insiste em imperar é ruim para todo mundo.



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