Carlos Alberto fez torcedor derrotado se sentir vencedor



Após uma vitória arrasadora contra a Alemanha por 4 a 1 no Mundialito de 1980/81, a torcida brasileira, carente de títulos desde 1970, depositava enorme esperança no time de Telê Santana. Na final, uma grande decepção: a Seleção perdeu para o Uruguai por 2 a 1. Eu faço parte da geração que não viu o tri e sofreu com os fracassos brasileiros pós-70.

Neste dia da final contra o Uruguai, assim que a bola parou de rolar, fui pra rua. E, como sempre, encontrei dezenas de moleques. Uma regra não escrita da minha infância: assim que acabava um jogo importante era hora de ir pra rua brincar de ser astro do futebol.

Especificamente naquela data a pelada no asfalto teve duas funções para aplacar a tristeza da derrota: 1) mostrar que ali estava o “futuro brilhante do futebol brasileiro” (era o que uma molecada de não mais do que dez anos acreditava). 2) lembrar a nós mesmos que o Brasil era e sempre seria o país do futebol. Porque produziu o maior time da história do esporte, a Seleção de 70, que a gente só conhecia por fotos, imagens de TV e pela boca dos mais velhos. “Eu vi…”, diziam, com aquela dose de arrogância dos privilegiados.

Assim, naquele começo de noite quente de janeiro de 1981 os “Carlos Albertos” proliferaram na rua do ABC Paulista. Era um cara que ninguém ali tinha visto jogar, que não estava na derrota que tinha acabado de acontecer, mas que todos sabiam que tinha sido muito bom de bola. A gente queria ser vencedor. A gente queria ser ele.

O garoto pegava na bola e narrava (narrar: outra “regra” da pelada infantil): “Lá vai Carlos Alberto…”, “Chuta Carlos Alberto…”, “Que bomba de Carlos Alberto!”. Claro que também pipocaram os Pelés, Gérsons, Jairzinhos e Tostões. Mas Carlos Alberto tinha algo diferente. Intitular-se “Carlos Alberto” naquele dia e naquela época era revelar um conhecimento extra sobre o futebol que ia além de se encantar com a magia de sujeitos habilidosos. O Capita era o capitão. A gente ouvia dizer que era o cara que não só jogava, mas também comandava todo mundo e intimidava os rivais. Corria de cabeça erguida e peito estufado. Se a Seleção fosse um grupo de super-heróis, ele seria o líder, o que falaria por todos e tomaria as rédeas de tudo.

Minha geração não viu o Capita em campo, mas cansou de ver a cena da bola quicando um décimo de segundo antes de ser chutada com violência absurda para enfim morrer no fundo da rede, resultando no mitológico quarto gol contra a Itália na final da Copa de 70. Carlos Alberto Torres fez moleques como eu se sentirem vencedores mesmo numa época em que o Brasil não ganhava nada.



MaisRecentes

O mundo gira



Continue Lendo

Dérbi não vale. Mas vale!



Continue Lendo

Agora vai?



Continue Lendo