Que fazer com o torcedor Vando?



O Vando (nome fictício) é louco pelo Jaracucaia (time fictício). Ele trabalha como pedreiro e não perde um jogo do seu clube do coração. Assiste em casa quando passa na TV aberta e no boteco na esquina quando passa só no pay-per-view. Ali ele encontra os parceiros religiosamente.

O Vando não vai ao estádio porque está difícil para ele. Os ingressos estão caros. Para conseguir comprar barato tem que ser sócio-torcedor e ele não pode comprometer sei lá quanto todo mês para ter direito a entradas mais em conta. Um jogo ou outro ele até poderia encarar, desde que desse uma economizada aqui, tomasse uma cerveja a menos ali. Mas aí ele enfrenta outro problema: tem que comprar pela internet. E aí também fica complicado porque ele não tem acesso à rede, embora já tenha smartphone e fale por whatsapp com os parceiros no grupo “aqui é Jaracucaia, p…!”.

Mas fazer uma compra online é difícil e ele não confia muito nesse negócio virtual. Gosta mesmo é de ir na boca da bilheteria com o dinheiro enfiado dentro da calça para não ser roubado, pagar com notas amassadas e sair com o troféu em mãos. Empurra-empurra, polícia despreparada e violenta, confusão e cambistas são coisas com as quais ele se acostumou a conviver, tantos e tantos anos de arquibancada que tem no currículo.

Vando não está errado. Ele cresceu vendo futebol assim. Viajou para ver o Jaracucaia em outros estados, perdeu a conta de quantas vezes ficou rouco de tanto torcer pelo seu time em jogos em casa. Esteve na boa, em decisões de títulos, mas também esteve na ruim, quando o Jaracucaia teve times horrorosos, daqueles que hoje outros
“torcedores” criticam: “Não vou gastar dinheiro com esses vagabundos!”.

A “modernização” do futebol deixou sujeitos como o Vando em uma situação complicada. Ele não é menos torcedor do que outros fãs do Jaracucaia, apenas tem menos dinheiro e menos afinidade com a internet. E isso é um fator muito limitante para que ele volte a ver ao vivo seu time do coração.

O Vando também se transformou numa sinuca para o Jaracucaia. Os dirigentes sabem que figuras como o Vando engrossam o número de torcedores e isso faz com que cota de TV e patrocínios sejam maiores. Mas colocar ingressos mais baratos e vendidos na bilheteria significa menos dinheiro nos cofres e problemas com o plano de sócio-torcedor.

Ontem, uma imensa fila se formou em frente ao Maracanã. Eram torcedores tentando comprar “à moda antiga” ingressos para Flamengo x Corinthians, jogo que marcará a reabertura do estádio após as Olimpíadas. A diretoria do Fla parou a venda online em determinado momento para dar chance a torcedores sem acesso à internet de irem ao estádio.

A intenção foi das melhores, mas os problemas foram os de sempre: filas, desconforto… no fim das contas, uma minoria conseguiu comprar (mesmo com preços bem altos) e a maioria foi embora de mãos abanando. Houve quem topou ser “roubado” por cambistas.

Nenhum clube no Brasil conseguiu ainda encontrar uma fórmula eficiente para ganhar dinheiro sem deixar no caminho o torcedor sem acesso a alguns privilégios. Triste vai ser se chegarmos à conclusão que isso é impossível.



MaisRecentes

Erros de arbitragem têm pesos diferentes em rodadas diferentes



Continue Lendo

Esqueça o fair play



Continue Lendo

Corinthians já tem o diagnóstico, mas ainda não encontrou a cura



Continue Lendo