Um julgamento cruel



Nas duas partidas da Seleção Brasileira sob comando de Tite um mesmo jogador destoou negativamente do restante. Críticos foram implacáveis em suas análises e nas notas (este que escreve neste espaço nclusive). Willian foi substituído nas duas partidas por Philippe Coutinho, que foi muito bem. Já há quem defenda uma mudança na equipe titular nas próximas partidas das eliminatórias para a Copa de 2018.

Aqueles onze homens que entram em um campo de futebol e mais os treinadores estão sujeitos em cada partida a um julgamento cruel da imprensa e da torcida. Jogar mal é um crime sem muito direito a apelação. Em tempos de mídias sociais, qualquer pessoa pública também é julgada instantaneamente. Haja sangue frio para suportar.

Willian jogou mal. E ontem, o ótimo jogador do Chelsea postou um texto no Facebook sem nenhum tom de justificativa pelo que não entregou em campo. Apenas desabafou sobre o fato de sua mãe enfrentar há dois anos e meio problemas graves de saúde. Especificamente uma frase é cortante: “Esse é o momento que todo atleta profissional mais desejaria ser uma pessoa comum.”

Um trabalhador comum não estaria sofrendo menos se tivesse a mãe em uma cama de hospital. Estaria sofrendo tanto quanto o famoso jogador do Chelsea. Mas provavelmente estaria sob julgamento apenas dentro de seu trabalho, caso não conseguisse desempenhar sua função da melhor maneira possível.

Willian, por outro lado, é julgado instantaneamente em público. Talvez aí esteja a explicação para a frase dele desejando ser apenas uma pessoa comum, o que ele não é. A exposição e julgamentos públicos dariam lugar para cobranças em um ambiente muito menor.

O desempenho profissional de qualquer pessoa sofre influência de como anda a vida pessoal dela, isso é óbvio. A maneira como cada um responde é que é diferente. Há atletas que entram em campo, quadra ou piscina e sentem naquele ambiente o conforto que não sentem fora. Há quem utilize as mazelas que viveu na vida como energia. Um exemplo claro disso é Mike Tyson, que subia no ringue com uma raiva que tirava provavelmente de sua infância e adolescência difíceis. E há quem tenha queda de desempenho por ser incapaz de separar as coisas. Não é nem o caso de dizer com certeza que Willian faz parte do terceiro grupo. Mas só esta possibilidade deveria ser suficiente para colocar uma questão na cabeça das pessoas: é possível fazer um julgamento específico sem ter a ciência do todo?

Willian vive dias muito difíceis, mas ainda é um privilegiado. Graças ao seu talento e às oportunidades que a vida lhe deu, se transformou em um jogador de primeiríssimo nível. Atua na Seleção Brasileira e na liga nacional mais rica do futebol mundial. Tem condições de dar à sua mãe o melhor tratamento possível. Que bom que pelo menos isso ele tem de positivo para se lembrar neste momento.

A avaliação a ser feita de Willian a partir de agora não deve mudar, entretanto. Se atuar mal, isso deverá ser registrado. Mas será importante sempre ponderar o que ele tem vivido fora de campo. Boa sorte ao Willian e à sua mãe.



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