Até o fair play foi contaminado pela malandragem



Sport e Corinthians jogavam pelo Brasileirão no domingo quando Luciano levou uma entrada e caiu no chão esperando que o árbitro marcasse uma falta ou que o time pernambucano jogasse a bola para fora para o atendimento médico. Nada disso aconteceu. Mas na beira do campo foi possível ver um Tite enlouquecido, gesticulando e gritando para seu jogador levantar e ir para o jogo.

Outro dia o Fluminense empatou com o Santa Cruz em 2 a 2. Após a partida, Levir Culpi dedicou parte de sua entrevista coletiva para falar o seguinte: – Eu não converso, eu exijo. Mas ainda assim é como a gente querer dar educação a todos os brasileiros agora. Nós, técnicos, não conseguimos fazer as coisas que queremos. Numa dessas reuniões, queríamos o fair play. Só devolver a bola no lugar onde ela saísse. O que fazem? Devolvem lá no goleiro para fazer pressão.

Sim, quando a gente achava que o fundo do poço havia chegado, eis que o debate que ganha importância no futebol brasileiro é o do fair play, um dos poucos hábitos que se imaginava funcionar bem em um universo encharcado de malandragem. Quando um jogador via o rival machucado em campo e chutava a bola de propósito para fora era como um bálsamo. Uma trégua na batalha. Quando o outro time devolvia a gentileza, aplausos. E aquele olhar entre os torcedores no estádio reconhecendo que um pingo de civilização estava presente ali.

Agora não mais. E a gota que fez a água transbordar do copo aconteceu no clássico mineiro entre América e Cruzeiro. Um jogador do América caiu no chão, outro do mesmo time jogou a bola para fora para o atendimento. Imediatamente o treinador Paulo Bento, da Raposa, decretou: “não devolvam a bola!” A confusão se fez, treinadores dos dois times foram expulsos. No vestiário, o português avisou: “O Cruzeiro não devolverá mais a bola nestes casos. E não quer que rivais devolvam também.”

Paulo Bento identificou que mesmo no gesto mais nobre e civilizado de uma partida de futebol a malandragem se infiltrou e está dando as cartas. E o mais triste de tudo: ele tem razão.

O fair play não está na regra, mas é um código de conduta que deveria ser respeitado por todos. Não tem sido assim, como se vê. Ao longo do tempo, jogadores criaram vários outros códigos de conduta em uma partida, como não fazer firula na frente de um rival. Esta é respeitada. O fair play não. Conseguimos contaminar até isso.



  • Julio Cezar Carvalho

    Há muito tempo que o fair play está contaminado, de 100 casos de jogadores que se jogam no chão se dizendo “machucados”, 99 são dos times que estão vencendo ou satisfeitos com o resultado de empate, motivo pelo qual estou 100% de acordo com o treinador português, quem deve interromper o jogo é o árbitro, se assim achar necessário.
    Os casos mais irritantes continuam sendo os dos goleiros, e estes ainda são os piores, pois o jogo não pode ser reiniciado sem a presença deles, neste mister, chama atenção o Fernando Prass, ele, sem dúvida, é disparado o goleiro que mais pede atendimento médico, sempre, claro, quando o Palmeiras está vencendo.
    É mais fácil ver a cabeça de um bacalhau do que um goleiro perdendo o jogo se machucando.
    Saudações Tricolores Carioca!

  • Mauro Sousa

    Texto perfeito Tironi… Mais um…
    O que muitas pessoas não entendem é que o comportamento dentro de um estádio de futebol (Torcedores e jogadores) é apenas um reflexo da sociedade. E a sociedade brasileira atual é extremamente grosseira, sem educação e civilidade…

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